“O espelho azul”- crônica de Gabriel Chalita

Por Gabriel Chalita*

As bordas dos antigos espelhos, geralmente, são douradas ou de uma madeira fosca, com cor de madeira mesmo. A de casa, não sei por quê, tem a borda azul. Desde que me lembro de lembrar, me lembro desse espelho. Grande. Envelhecido já naquele tempo.

As bordas azuis nunca foram retocadas, o que confere ainda mais autoridade ao velho espelho. Criança, me espelhava nele sem saber, decerto, se era eu mesmo ou algum outro. Crescido, fui compreendendo que, na imagem que tenho de mim, busco um outro. Ou a parte que me falta na imagem que vejo.

É difícil saber o que busco. A primeira mulher por quem me apaixonei fez nada dos meus sentimentos. Riu como se ri de um desavisado. Olhei no espelho os meus olhos de dor. Lamentei alguma ausência. Quis ser outro. Mas era apenas o que o espelho me mostrava. Da primeira dor amorosa à primeira história de amor.

Quebrei a rotina dos dias, quando conheci Angélica. Experimentei a dialética do senhor e do escravo. Eu a amei mais do que a mim mesmo. Muito mais. Era devotado a ela. O espelho me viu, muitas vezes, rindo de amenidades. Fomos juntos por seis anos. E, então, ela arrumou uma razão para a despedida. Chorei ouvindo as músicas que ouvíamos juntos. Escrevi e rasguei muitos bilhetes. Ensaiei falas diante do espelho, para quando ela me procurasse. Revezei frases duras com compreensão e perdão. Nunca usei as frases. Ela nunca voltou. Um dia, conheci Eugênia. E sem muito amor, ela nunca soube disso, nos casamos. Convenceu a mim, o espelho, que uma vida a dois não precisa de amor, precisa de respeito, de companheirismo. Ou talvez tenha me explicado o espelho a diferença entre paixão e amor. O tempo, e o espelho é disso testemunha, me fez amar Eugênia. E a amei ainda mais, quando soube da sua doença e quando dela arrumei o velório.

Depois do enterro, o espelho me viu distante. Quarenta anos de casados. Quatro filhos. Seis netos. E a decência necessária de não causar dor à outra imagem que me olhou junto no espelho.

Agora sou eu, quase setenta anos de idade. Ainda com disposição para desfrutar de companhia. Ainda querendo o despertar acompanhado. Arrumei o nó da gravata diante do espelho. Era um encontro com alguns amigos da escola antiga. Alguns eu não via há anos, certamente, não conseguiria saber. Outros prosseguiram dividindo fotografias da vida comigo. Fomos a um restaurante e lá estava Angélica. Meu Deus! Eu não sabia que ela iria. Viúva, também. Amiga de Alceu, um amigo da minha turma.

As belezas dançam danças diferentes durante o tempo. Era uma outra Angélica. Era igualmente bela. Falamos pouco nesse primeiro dia. Voltei e retirei de mim o medo, diante do espelho. Por que ela foi? Se foi, é por que estaria disposta a um recomeço? Por que ela, um dia, me deixou? Explicou nada naquele tempo. Foi o amor mais cortante que senti.

Enquanto penso esses pensamentos, diante do espelho, peço perdão à memória de quem amei tantos anos. Eugênia não teve as dúvidas que teve Angélica. Eugênia nunca ensaiou em me deixar. Em Eugênia, não vivi os revezes de ser senhor e de escravo. Éramos um. Definitivamente, éramos um sem nos deixarmos de ser.

O espelho me vê ansioso. Decido esquecer Angélica. O que sinto é tão imaturo quanto o que sentia antes. Antes de amadurecer. Não é adequado ficar velho sem algum acúmulo de sabedoria. O meu corpo, diante do espelho, me avisa que não estou velho. As inquietudes podem ser vistas no velho espelho. Sento, então, na poltrona e penso. Enquanto penso, durmo. Enquanto durmo, sonho. Ainda sonho. É o que me diz o espelho azul.

Angélica sorriu muitas vezes, enquanto comíamos. Foi para mim? Estou imaginando o que não aconteceu? O riso houve, disso não tenho dúvidas. Ela sabia que eu iria, foi o que disse o Alceu, quando perguntei.

A casa vazia empresta ainda mais pensamentos. Quanto tempo me resta? É melhor abraçar a calmaria e olhar um olhar de paz para o espelho ou é melhor me arrumar para mais uma viagem que a curta viagem da vida me proporciona? Talvez Angélica possa me dizer por que partiu. Talvez o curto tempo da existência tenha nos dado uma pausa para eu viver a linda história com Eugênia. Talvez ela apenas tenha amado outro homem e, por isso, partido. E agora, partida com a sua partida, voltou ao início. Só saberei, se permitir. Se não permitir, posso imaginar a história que eu quiser. Eu e o velho espelho que, de mim, sabe tudo. Será que existe destino? Será que nós é que decidimos? Como? Encontrar, tantos anos depois, esta mulher…

Não tenho idade para demoras na decisão. Tampouco tenho a idade dos arroubos. Vou dormir um sono bom. Acordar. Olhar para o espelho e, então, respirar o que fazer.

O azul do espelho não é por acaso. A liberdade é um horizonte encantado que nos convida ao voo. O céu desse milagre outonal está lindo.

*Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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