Devemos acusar Freud de misoginia? A crítica psicanalítica exige questionar cânones teóricos sem leviandade

“Quando a onda de obscurantismo político tiver perdido o próximo round no Brasil —a luta é perene—, lembremos de celebrar também as produções de jovens pesquisadores/as brasileiros/as que na “balbúrdia” das universidades não se deixaram abater. Além disso, a geração que se graduou a partir de ações como Prouni já tem nos recompensado com trabalhos que entendem a pesquisa acadêmica com os necessários atravessamentos de raça, classe e gênero.”

O psicanalista Sigmund Freud, em retrato de 1929 – Reuters

Por Vera Iaconelli

Há quem se queixe de que Freud teria sido um misógino defensor do patriarcado, heteronormativo, esquecendo que entre suas descobertas e o momento atual, um século se passou. Supor que Freud deveria chegar à atualidade sem qualquer anacronismo é tão fantasioso quanto defendê-lo de forma acrítica. Ninguém está isento das marcas do tempo, ainda mais se tiver o raro mérito de ser signatário de uma obra centenária, cujo motor é a autocrítica.

Coube ao inventor da psicanálise a ousadia de apontar a bissexualidade primária em todos nós, revelar a sexualidade infantil, separar radicalmente a sexualidade da reprodução e sustentar que não há coincidência entre genitália, identidade sexual e orientação sexual. Achou pouco? Imagine bancar uma teoria dessas no tempo em que mulheres usavam espartilho. Para dar proporção à coisa, cem anos depois as mais importantes autoridades de nosso país cantam em coro: “meninas vestem rosa e meninos vestem azul”.

Freud, assim como Lacan, ora é visto como ultrapassado, liberando o crítico apressado de lidar com sua descoberta demolidora, ora é tido como intocável, revelando a idealização canhestra de alguns comentadores.

Para fazer jus ao debate necessário entre psicanálise e algumas das questões contemporâneas mais significativas, sugiro o lançamento de Pedro Ambra, “O ser sexual e seus outros: gênero, autorização e nomeação em Lacan” (Blucher, 2022). O livro, fruto de seu doutorado defendido pela USP e pela Université de Paris, recebeu declarações entusiastas vindas da banca franco-brasileira, culminando com o convite explícito de que o autor continuasse suas pesquisas na França. A obra é um dos exemplos de como a produção psicanalítica brasileira não deve nada ao berço europeu e de como não se deve subestimar o peso da pata da colonialidade sobre os pesquisadores do hemisfério sul. Dedos cruzados para que a sangria que leva nossas melhores cabeças e corações para fora do país não se aplique ao caso.

Ambra faz parte de uma preciosa leva de autores, autoras e autorxs que busca apontar a insistência heteronormativa de alguns expoentes da psicanálise (como vimos na manifestação contrária à adoção de crianças por casais homossexuais na França). Passar o pente fino na obra freudolacaniana com rigor e crítica é imprescindível para que encontremos algum sentido em seguir com a psicanálise, cuja produção teórica sempre foi atravessada por emergências históricas (Grandes Guerras, manifestações de maio/68). Uma das emergências que nos é contemporânea e da qual teremos que dar conta diz respeito ao movimento pelos direitos LGBTQIA+.

Quando a onda de obscurantismo político tiver perdido o próximo round no Brasil —a luta é perene—, lembremos de celebrar também as produções de jovens pesquisadores/as brasileiros/as que na “balbúrdia” das universidades não se deixaram abater. Além disso, a geração que se graduou a partir de ações como Prouni já tem nos recompensado com trabalhos que entendem a pesquisa acadêmica com os necessários atravessamentos de raça, classe e gênero.

Mudando de assunto, mas nem tanto, aproveito para lembrar que nesta segunda-feira (6), às 16h, na Ocupação 9 de Julho, a Coalizão Negra por Direitos fez o lançamento nacional da iniciativa suprapartidária Quilombo nos Parlamentos, de fortalecimento de pré-candidaturas de pessoas ligadas ao movimento negro. Afinal, mais do que voltar a levantar a cabeça, é fundamental que saibamos para onde dirigir nosso olhar.

Vera IaconelliDiretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”. É doutora em psicologia pela USP.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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