Diante do feminicídio, é fundamental o repúdio à romantização do ciúme conjugal

“A mentalidade que pretende que o desejo no par conjugal seja controlado por decreto é baseada na ideia de possessão e exclusividade. O ciúme entre casais é visto como prova de amor para homens e mulheres, mas são elas que perdem a vida quando o companheiro as vê desejando algo além da relação.”

Imagem de um olho com uma lágrima e a sombra de um casal se beijando no reflexo
Thomas Wolter/Pixabay

O QUE FAZER COM O NOSSO CIÚMES?

Por Vera Iaconelli


Santo Agostinho
 disse, no século 4º, “qui non zelat non amat” ou “quem não sente ciúme não ama”. Ele se refere à criança que ganhou um irmãozinho e sofre ao ver os pais dividindo atenções.

O ciúme é um afeto que está em todo lugar: na amizade, na sala de aula, no trabalho, na família. Basta juntar três e passamos a comparar quem recebe maior ou menor atenção, carinho e deferência. Nada mais humano e, portanto, nada mais banal.

Vinícius de Moraes, que cantava que o “ciúme é o perfume de amor” era conhecido por exigir fidelidade dos amigos com quem trabalhava. Chico Buarque conta, em entrevista, da reprimenda que recebia do poetinha toda vez que surgia com outro parceiro musical.

Não se trata absolutamente de demonizar um afeto, erro comum de quem acha que dá para produzir um ser humano mais “limpinho”, sem os constrangedores ciúmes, inveja, ódio, medo. Erro que decorre da aspiração em transcender a humanidade em nós, posição na qual estaríamos acima do bem e do mal e, provavelmente, caminhando sobre as águas.

Embora o ciúme faça parte, é imprescindível lembrar que não existe experiência humana que não seja mediada pela linguagem, ou seja, o que é esperado e aceitável no mundo dos afetos é atravessado pela relação entre os costumes, a época e o sujeito.

Portanto, devemos ensinar às crianças a melhor forma de lidar com o ódio pela chegada do irmão, inibindo atitudes que a coloquem em perigo físico e moral. O mal-estar entre adultos também é comum, mas tampouco justifica deslealdades ou crimes. Recentemente vimos o ciúme da filha servir de explicação para um triplo homicídio, no caso do jovem ator Rafael Miguel.

Quando se trata de irmãos, amigos e colegas é de se esperar que o sujeito se conforme com o fato de que a vida é muito mais legal quando compartilhada com várias pessoas a quem amamos e respeitamos do que no círculo apertado das duplas fechadas, de caráter usualmente patológico. Churrasco com um amigo não rola.

Mas quando se trata do par amoroso, ainda acreditamos que a exclusividade é regra e a livre expressão do ciúme, um direito. Nele, o ciúme é tido como óbvio e as reações passionais como justificáveis, ideia da qual decorre a nefasta suposição de crime passional. Alguém acredita que esse abominável subterfúgio jurídico colaria no assassinato de amigos por ciúme? Algo como: amava tanto minha amiga, que ao vê-la no shopping com outra, não tive dúvida e a estrangulei.

A mentalidade que pretende que o desejo no par conjugal seja controlado por decreto é baseada na ideia de possessão e exclusividade. O ciúme entre casais é visto como prova de amor para homens e mulheres, mas são elas que perdem a vida quando o companheiro as vê desejando algo além da relação.

Recentemente ouvi do antropólogo Antônio Cerdeira Pilão da USP, que estuda relações não monogâmicas, o termo compersão —neologismo oriundo do inglês “compersion”— que se refere à alegria de ver o parceiro feliz ao lado de outro.

Da mesma forma que nos sentimos bem ao ver filhos, parentes e amigos felizes ao lado de outras pessoas, mesmo que longe de nós, a compersão é a marca do reconhecimento de que não conseguimos ser tudo para o outro, seja qual for a natureza da relação. O ciúme do irmão, do amigo, do chefe, do professor e do companheiro/a não são de naturezas diferentes. São de foro íntimo, de inteira responsabilidade de quem o sente e não há por que hierarquizá-los.

Diante da banalização dos feminicídios, é fundamental o repúdio à romantização do ciúme conjugal, que lhe serve de justificativa, no mais das vezes.

Vera IaconelliDiretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”. É doutora em psicologia pela USP.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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