A cracolândia é monumento ao que somos

“O que tem faltado são políticas bem formuladas e duradouras para lidar com um problema de difícil tratamento, por ser ao mesmo tempo caso de assistência social, de saúde e de segurança, a requerer cooperação entre instâncias dos governos municipal e estadual e delas com organizações sociais atuantes no local.”

Operação da polícia civil e gcm na praça Princesa Isabel na madrugada desta quarta (11) no novo ponto da Cracolândia – Danilo Verpa/Folhapress

Faltam políticas bem formuladas e duradouras para lidar com o problema

Por Maria Hermínia Tavares


Tempos atrás, saindo de carro de um concerto da Osesp (Orquestra Sinfônica de São Paulo) com uma pessoa conhecida, passei pelo horror da cracolândia. Diante da tragédia humana ali exposta, ela comentou como seria bom se a Sala São Paulo existisse em outro lugar.

Empatia e solidariedade com os últimos dos deserdados não brotam facilmente quando as iniquidades sociais são tamanhas que os outros, vivendo a alguns poucos quilômetros dali, parecem habitar planetas diferentes.

Apesar disso, aqueles sentimentos vicejam no território devastado: na militância febril do padre Júlio Lancelotti; nas várias ONGs, como o Pão do Povo da Rua, que distribui comida e ensina a jovens da região o ofício de padeiro; em iniciativas como o notável @SPinvisível, a desvelar no Instagram a humanidade de quem mora ao relento; na atuação de assistentes sociais e outros agentes públicos que trabalham na ponta das secretarias.

O que tem faltado são políticas bem formuladas e duradouras para lidar com um problema de difícil tratamento, por ser ao mesmo tempo caso de assistência social, de saúde e de segurança, a requerer cooperação entre instâncias dos governos municipal e estadual e delas com organizações sociais atuantes no local.

O retrospecto de políticas sociais bem estabelecidas deixa claro os ingredientes do êxito: uma rede de especialistas com ideias convergentes em relação ao que pode ser feito e experiência de gestão pública; boas instituições que sobrevivam à alternância de governos; lideranças políticas dispostas; pressão dos potenciais beneficiários.

Políticas sociais para valer sempre são também a institucionalização de princípios de justiça e solidariedade, refletindo valores e visões compartilhadas do que seria uma sociedade decente. O avesso do que foi, por exemplo, a sétima etapa da Operação Caronte, que, na quarta-feira da semana passada (11), desalojou com desumana brutalidade pouco mais de uma centena de pessoas aglomeradas numa praça central da metrópole, dispersando-as pelas redondezas. 

Tendo mobilizado 650 agentes das polícias Civil e Militar e a Guarda Civil Metropolitana para prender 7 —sete!— suspeitos de tráfico, foi apenas mais uma das iniciativas a um só tempo brutais e desastradas, mediante as quais diferentes administrações há décadas tentam lidar com a concentração de usuários miseráveis e pequenos traficantes de droga no chamado coração da metrópole. 

Na mesma praça ou em outro ponto próximo, a cracolândia renascerá como monumento urbano ao fracasso dos governos e à face mais cruel da sociedade que fizemos —e somos.

Maria Hermínia TavaresProfessora titular aposentada de ciência política da USP e pesquisadora do Cebrap. Escreve às quintas-feiras.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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