O amor na Cidade Luz

“Amei Juliana desde os inícios. Sua meninice divertida, sua leveza de alma, sua entrega para um caminhar acompanhado de belezas e, também, de estranhamentos, como é a vida de quem vive a dois, como é a vida.”

O AMOR NA CIDADE LUZ

Por Gabriel Chalita

Acordei já ciente do que deveria fazer. Nos dias que antecederam nossa viagem, preparei os dizeres. Nas costuras das nossas vidas feitas uma, só uma palavra cabia, amor; só um verbo a ser conjugado, amar. 

Amei Juliana desde os inícios. Sua meninice divertida, sua leveza de alma, sua entrega para um caminhar acompanhado de belezas e, também, de estranhamentos, como é a vida de quem vive a dois, como é a vida.

Os anos foram mudando em mim os dias. O meu trabalho exige ausências. As minhas preocupações me tiram momentos preciosos que gostaria de entregar a ela. E, mesmo assim, nada preciso explicar. Seu sorriso me alivia as falas e me devolve a lembrança do que sou, um homem apaixonado.

Temos dois filhos. Uma linda menina de nome Valentina que, ao dizer “papai”, explica a felicidade, e um menino, há pouco nascido, engatinhando nos sorrisos de nos entreter no amor. Temos história. O tempo vai disfarçando os dias e, quando acordamos, já se foram anos do primeiro dia.

A Cidade Luz vivia a temperatura da beleza. Eu a convidei para irmos olhar a torre. As alturas sempre nos fascinaram. Aprendemos que viver nas baixezas é um desaprender. Olhamos os nossos erros como quem olha os ventos que levam as nuvens e que devolvem luz aos dias. Ela disse sorrisos e foi. Preocupada em deixar as crianças. Ela é mãe inteira. Ama cada segundo dos afazeres da maternagem. Amamenta de afetos suas crias. Corrige. Celebra. Vive. Prefere estar com os dois a qualquer festa. Estar com os dois é a maior festa da vida. “Pablo, meu amor, não podemos demorar muito. João acorda e quer me ver”. 

Eu agradeci a escolha certa. E, diante do que ilumina,  retirei uma joia nova, escolhida para celebrar. Ajoelhei a vida aos seus pés e a pedi em casamento. “É claro que sim”. Foi o que disse. Foi o que disse derramando lágrimas por estarmos ali, permanecendo ali. Eu a beijei como da primeira vez. Com a delicadeza de quem escolhe uma flor, mas não a retira do jardim da felicidade, apenas faz dela a sua flor, a única flor do universo.

Depois do aceite, andamos de mãos dadas. As pessoas pareciam compreender os nossos sentimentos. Era um mundo gigante feito território, apenas nosso, no nosso compromisso de cuidar do jardim até o último dia.

Viver é compreender a morte que um dia chega e é chegar até ela agradecendo pelas escolhas corretas, pelos não-desperdícios. Viver é desacreditar das falas desconectadas de amor, dos pessimistas que antecipam a morte, inclusive a morte do amor. Eu sou um crente da eternidade, da felicidade quando se faz o bem. 

No jantar que se deu, depois do “sim” de Juliana, meu amigo Salomão, que leva o nome do rei da Sabedoria, abraçou a nossa felicidade e explicou o significado do plantio e da colheita da bondade. Quero prosseguir sendo bom, com todas as rasuras que fazem parte do texto da minha existência. Quero prosseguir sendo bom. Até a leitura final. Do balanço do que contribui para o tempo e o espaço onde nasci, onde nasceu também Juliana. Como é bom encontrar um amor e como é bom não desperdiçar o sagrado encontro.  

Hoje é um dia comum. Já voltamos da viagem. Hoje é um dia comum em que posso acordar ao lado dela e saber que viverei um dia intenso no trabalho interminável. E que voltarei para cheirar o seu cheiro, para abraçar cada pedaço da sua história e me fazer novamente inteiro para outros dias. Hoje é um dia comum, de uma cidade que também é luz, porque nós iluminamos os lugares em que estamos, quando estamos.

“Me dá um beijo, papai”, é Valentina, correndo até a mim. Junto com ela está Juliana com João no colo. A porta da casa já está aberta, mas naquele rico instante eu estaciono todas as minhas ansiedades e respiro a felicidade de ser amado.  

Em breve, faremos a festa do nosso casamento. Será um ato formal de um amor já formalizado pelos dias em que vivemos juntos. Mas será uma festa. Escolhemos a primavera como a estação que há de assistir aos dizeres. O renovado “sim”, a renovada decisão de “cuidar”, o sagrado momento de fazer sagrados todos os momentos de vivermos juntos.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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