Ucrânia e Rússia, onde jogam Lula e Boric: guerras frias e quentes no tabuleiro mundial (por Tarso Genro)

“Como não existe mais soberania absoluta, no plano econômico e na totalidade da questão científica, o que fica flagrante é que a guerra entre Rússia e Ucrânia, independentemente de quem seja o país vencedor, vai interferir diretamente no futuro da América Latina. Não só esgarçando as relações entre as classes internas – que serão mais ou menos prejudicadas pela barbárie em curso – mas também porque quem “paga a conta”, ao final de tudo, são as nações subordinadas geopoliticamente aos países vencedores ou vencidos. A vitória e a derrota em guerras desta envergadura são particulares, mas os seus efeitos nefastos são universais.”

Tarso Genro (*)

“Mas você não morre, você é duro, José!\Sozinho no escuro qual bicho-do-mato\

(…) Sem parede nua para se encostar,\ sem cavalo preto que fuja a galope, Você marcha, José!\ José, para onde?(Drummond, “E agora José?” – excerto)

É possível que uma nova ordem mundial esteja se configurando, para um novo e longo período, substituindo os padrões do período da “Guerra Fria”. Algumas perguntas se impõem: trata-se de um trânsito, ainda não muito claro, para o fim do “eurocentrismo” político-cultural (de que nos fala Fiori) ?; para uma multipolaridade instável? – visão que percorre os analistas “senso comum” da geopolítica global – ? Ou estamos nos dirigindo para uma ordem global nova, desenhada pela incrível ascensão chinesa, como a prospectada por Elias Jabour, nos seus textos mais recentes? Ou ainda: quem sabe, para um novo tipo de “tolerância repressiva”, na fórmula que falava Kissinger na época do confronto URSS x EUA, com a Europa agora se apresentando como submetida à política alemã, que é notoriamente subsidiária dos EUA?.

Não se sabe bem, ainda, quais são os contornos do “novo”, mas o velho já está sem respirar, esganado tanto pelos nazistas organizados no Ministério do Interior Ucraniano, como pelas decisões da “Grande Rússia”, que tendem mais para as aspirações despóticas do czarismo, do que para o seu passado de dominação Soviética. A China olha e aconselha; os EUA negociam com a Venezuela; e tudo indica que hoje se encontram, em Roma, negociadores americanos e chineses para iniciar um Pacto de Ialta pós-moderno.

Hobsbawm, no seu pequeno grande livro “Ecos da Marselhesa”, que celebra o bicentenário da Revolução Francesa, lembrou que Marx – num outro cenário instável da Europa – disse aos poloneses no calor dos acontecimentos de 1848: “O jacobino de 1793 tornou-se o comunista de hoje”. A reconhecida visão historicista de Marx, respeitada nos canais eruditos da historiografia moderna, nos faz perguntar – seja pela negação ou pela adesão ao sovietismo dos velhos tempos da URSS – quem seriam os jacobinos de hoje, levando em consideração o papel que os antigos países comunistas tiveram na época da Guerra Fria? Aquele ciclo histórico global, que se estabilizou, de um lado (à direita) pela tolerância repressiva e, de outro, (à esquerda), pela legitimação das Guerras de Libertação Nacional, agora se esfuma na na época do globalismo financeiro do mundo. E o faz, não mais sob “big stick” da “diplomacia do dólar”, da política externa americana, mas pelas exigências das novas formas de operação das “guerras híbridas” e difusas, fundadas na comunicação controlada em escala mundial e acelerada por decisões bélicas sobre os territórios nacionais submetidos. A Guerra Russo-Ucraniana é hoje o fio condutor mais forte da configuração desta nova ordem, que incidirá diretamente sobre os Governos dos Presidentes Boric e do Presidente Lula, com sua provável volta ao Planalto.

A América Latina participou fragmentariamente da Guerra Fria, dominada pelas ideias que as classes dominantes locais fizeram do conflito entre o “comunismo” e o “capitalismo”. Formalmente, no conflito internacional, estas elites eram representadas pelos Estados Unidos, e a sua oposição principalmente pela URSS. A partir de governos, que defendiam a soberania nacional líderes populares, como – por exemplo – Perón (Argentina), Vargas e Jango (Brasil) e, em outro nível, como Allende (Chile), o General Velasco Alvarado (Peru) e o General Torres (Bolívia), bem como o General Cárdenas (no epílogo da Revolução Mexicana), parte da América Latina se integrava confrontada com o Império.

No jogo da Guerra Fria era possível legitimar no cenário global, ainda que precariamente, tanto governos populares que defendiam a soberania nacional, como “legitimar” governos autoritários e fascistas, através de golpes militares que sustentavam projetos associados e dependentes dos EUA. Assim, o Continente chega – até hoje – como um conjunto de fragmentos nacionais que não criaram vertentes políticas majoritárias – jacobinas ou não – suficientemente fortes para resistir ao dilaceramento da nação: pela falta de soberania, aumento da pobreza estrutural, exclusão e servidão política das suas velhas “elites”, que caracterizam este cenário histórico.

O fim da 2a. Guerra abriu uma série de movimentos de libertação colonial-imperial, cujo respaldo veio principalmente da União Soviética, fortalecida pelo seu enorme sacrifício material e humano para derrotar a besta nazista, que ameaçava o própria futuro de uma humanidade pelo menos mais justa, bloqueada então pela naturalização das políticas de extermínio de populações inteiras, como fizeram com os judeus. Para tanto, matavam impiedosamente ciganos, homossexuais, deficiente físicos e mentais, e todos os que o alemão “puro” julgasse inferior, a partir do um juízo assentado na sua suposta “superioridade racial”. Como não existe mais soberania absoluta, no plano econômico e na totalidade da questão científica, o que fica flagrante é que a guerra entre Rússia e Ucrânia, independentemente de quem seja o país vencedor, vai interferir diretamente no futuro da América Latina. Não só esgarçando as relações entre as classes internas – que serão mais ou menos prejudicadas pela barbárie em curso – mas também porque quem “paga a conta”, ao final de tudo, são as nações subordinadas geopoliticamente aos países vencedores ou vencidos. A vitória e a derrota em guerras desta envergadura são particulares, mas os seus efeitos nefastos são universais.

Os Governos Obrador (México), Fernandez (Argentina), os Governos atuais do Peru e da Bolívia, e os futuros Governos colombiano e brasileiro – com a chegada ao Planalto novamente do Presidente Lula – serão responsáveis pelo que vai ocorrer na América do Sul (e Latina) no próximo ciclo de combates em defesa da Democracia e do Estado Social, legados dos movimentos democráticos e revolucionários do Século passado. Dois países, Chile e Brasil, se não assumirem a vanguarda – dentro das suas condições geopolíticas –  para a formação de uma identidade específica do “Sul-do-Sul”, num novo contexto de pesos militares e políticos dos países que “mandam” no mundo, podem condenar  toda a América Latina ao fracasso ou a novos tipos de submissão. Está sendo gestada  uma nova ordem  de submissão, cujo tipo vai operar como substituição da “Guerra Fria” pelas “Guerras Quentes”, agora  localizadas e negociadas pontualmente segundo os interesses, a influência econômica e a capacidade militar, das nações dominantes.

A América Latina dos sofrimentos e do genocídio dos povos originários, das marcas de torturas e violências contra as mulheres e homens de todas as classes que a construíram, aguarda extenuada e vibrante. O Chile, com sua face heroica voltada para as águas frias do Pacífico – que abrem estradas de água aos infinitos lugares do mundo – e o Brasil com sua costa Atlântica que guarda a luz de submarinas energias – podem e devem ter especificidades nas suas políticas externas soberanas, mesmo nas relações com os países hegemônicos. Lula e Boric, contudo, só não têm o direito de esquecer o conjunto da América Latina, cujo “Sul do Sul” guarda a maioria dos sonhos de emancipação, soberania e democracia, depois do México Rebelde e da Revolução em Cuba, cujos processos foram bloqueados pela História adversa do Século passado. Boric é inteligente e jovem, o que – como ele mesmo disse – não lhe absolve se errar, começa agora. Lula, experiente e forte, recomeça de onde sobretudo, acertou. E isto é mais do que uma oportunidade histórica, mas é a própria conjugação de biografias contidas em muitas lutas, de mulheres e homens, que já repousam como estrelas no firmamento brilhante da noite americana.

(*) Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais.

Publicado originalmente no portal SUL21

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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