Como sabemos, maternidade e paternidade são, também, construções sociais

“Para resumir, a modernidade, em sua pegada individualista e narcísica, no melhor sentido de valorização de um Eu, coloca a ênfase sobre aquilo que Sou (alô cogito cartesiano) e aquilo que Serei (projeto iluminista-evolucionista), tanto nas minhas realizações ao longo da vida quanto no “legado que transmitirei à posteridade”.”

MAMÃE FALEI

Por Maria Homem

Como sabemos, a maternidade não é propriamente “natural” —e nem sempre a gente achou que devia amar o filho sobre todas as coisas. Como sabemos (embora alguns não o saibam ou não o admitam), maternidade e paternidade são, também, construções sociais: o modo como nos colocamos diante da cria é fruto de longo desenrolar histórico e psicopolítico.

Falar de “instinto materno” como essência atemporal e ligado a uma “natureza” imaterial, soberana e metafísica, é uma operação ideológica, ela mesma fruto de um processo histórico. Ou seja, nem sempre o pacto social explícito assim como o pacto intersubjetivo inconsciente colocavam o meu bebê —meu gene, minha cara, minha continuidade— como a quintessência de minha realização e uma das top 3 maravilhas sobre a face da Terra.

Para resumir, a modernidade, em sua pegada individualista e narcísica, no melhor sentido de valorização de um Eu, coloca a ênfase sobre aquilo que Sou (alô cogito cartesiano) e aquilo que Serei (projeto iluminista-evolucionista), tanto nas minhas realizações ao longo da vida quanto no “legado que transmitirei à posteridade”.

Aliás, vejam como essa expressão autoriza a vaidade que, de pecado capital medieval, passa a ser atributo primário do jovem winner em gestação na família nuclear burguesa moderna.

Onde chegamos? Como aponta a sagaz expressão de Freud, o século 19 e sobretudo o 20 constroem Sua Majestade, o Bebê. Os adultos, num processo de declínio da transcendência pré-moderna, se vêem obrigados a buscar uma outra forma de continuidade de seu próprio valor.

Já que perdemos a esperança em deuses e vidas eternas, vamos nos perpetuar em nossas miniaturas, que serão aliás tudo o que não fomos e terão a coragem de levar a cabo nossas mais altas aspirações.

Como consequência, o bebê, pequeno sujeito, responde a essa demanda e se apresenta como o centro da atenção de seus pais. Ele logo cedo aprende a sorrir, pular, recitar para se fazer o objeto de amor que deve ser. Olha aqui mamãe, olha como sou lindo. Ei, papai, foca em mim. Mamãe, olha para mim, vou falar uma coisa. Vou falar um monte de coisa. Vou causar. Espernear. Isso, não tira o olho de mim. Presta atenção em mim. Não desvia um minuto. Olha aqui o seu enfant terrible e fofo.

Sobretudo com os bebês-homens, esse processo tende a ficar estacionado justamente nesse ponto. E a cultura (de ideal dominante branco-machocêntrico) continua passando pano para esses filhinhos. De certa forma, as mães muitas vezes se deixam seduzir por uma fantasia de maravilhamento diante de seu pequeno menino, e se engajam no projeto de torná-lo o homem perfeito que elas não encontraram.

E o pobre coitado vira o que? Aquele bebê eterno que fica gritando e acenando para chamar a atenção: “Mamãe falei!”. Ei mamãe, olha o que eu falei, olha o que eu aprontei, olha só como eu causei e como eu te amo. Você é meu único grande amor.

Isso mesmo mamãe (e papai, conivente e orgulhoso do filhão): as outras são só objetos comestíveis. Sim, no fundo, elas não significam nada para mim, elas formam a série de vaginas fantasiadas para o grande garanhão aqui comer.

Isso mamãe, sou pseudo-hétero. Sou pseudo-homem. Pois que sou e sempre serei filho. Seu filhinho amado e para sempre fiel. Não sou plenamente hétero pois não há heteridade, outridade, não há outro no meu universo. Não há outro sujeito, e muito menos outro sujeito feminino. Pois mulher é para conquistar, comer e descartar.

A única que sai dessa linha é você mamãe, você e a Virgem Maria. Pois mulher boa e pura mesmo, valorada, é a mãe virgem, no máximo santa esposa. O resto é tudo vagabunda. Acredita em mim, mamãe, te amo para sempre.

Maria HomemPsicanalista e ensaísta, com pós-graduação pela Universidade de Paris 8 e FFLCH/USP. Autora de “Lupa da alma” e “Coisa de menina?”

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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