Racismo contra não brancos é explícito nas rotas de fuga da Ucrânia

“Quem já foi chamado de “cocô” conhece aquele trem. Chocado com as cenas de racismo explícito em Lviv, próxima da fronteira da Ucrânia com a Polônia, até mesmo um fotojornalista português que cobria a guerra comoveu-se e disse: “Quem tem pele escura não passa”; “eu não sabia que havia tantos negros, indianos e asiáticos lá”.”

Por Marilene Felinto

Quem já foi chamado de “macaco” (assim desumanizado) ou mesmo de “cocô” (assim coisificado) conhece aquele trem cuja entrada é vedada a gente de pele escura, trem que percorre trilhos do que há de mais abjeto no gênero humano: a discriminação do outro pela cor da pele.

O trajeto desse trem não é apenas aquele que sai da Ucrânia em guerra e entra na Polônia receptiva a refugiados europeus brancos. Ele cruza fronteiras e séculos, vai para todo canto.

Quem já foi chamado de “macaco” conhece aquele trem cuja porta se fecha para negros em fuga da guerra na Ucrânia. Militares ucranianos e poloneses, armas na mão, mandam para o fim da fila dos trens os africanos, indianos, árabes, brasileiros —os indesejados, os banidos, os de vida proibida. “Sai desse trem”, dizem para a gente escura.

Quem já foi chamado de “cocô” conhece aquele trem. Chocado com as cenas de racismo explícito em Lviv, próxima da fronteira da Ucrânia com a Polônia, até mesmo um fotojornalista português que cobria a guerra comoveu-se e disse: “Quem tem pele escura não passa”; “eu não sabia que havia tantos negros, indianos e asiáticos lá”.

Se escrevi “até mesmo um português”, é porque considero Portugal um dos países mais racistas do mundo, entre todos os que já conheci. Pelo menos com negros brasileiros é ultrarracista: nem na Alemanha, França, Holanda ou Estados Unidos fui discriminada como em Portugal.

A propósito, eis uma ilustração do histórico racismo português: o fato de não haver em Lisboa nenhum museu que exponha a barbárie da escravidão negra ou do genocídio indígena que os portugueses perpetraram além-mar por séculos.

Também a propósito, ressalto logo aqui o fato bastante odioso de que a própria imprensa naturaliza a discriminação racista na guerra da Ucrânia —no noticiário brasileiro de jornais, TVs e afins, o assunto é pauta ligeira, em vez de ser denunciado como crime contra a humanidade.

Conhecemos o trem que seleciona gente na base do desrespeito deliberado. “Respeito”, como observa Muniz Sodré, seria a abertura de um corpo para a aceitação de outro como parceiro pleno na condição humana. Nas fronteiras da humilhação mundo afora (“Sai desse trem!”), porém, a gente de pele escura não é tratada pelos parâmetros da condição humana. Animalizada ou coisificada, está fora da “primazia existencial” que é vantagem daqueles de pele branca.

“A cor clara é, desde o nascimento, uma vantagem patrimonial que, na ótica dos beneficiários, não deve ser deslocada”, diz Sodré. O senso comum, afirma o professor, alimenta o sentimento —inscrito como padrão subconsciente no arcaísmo predominante, sem justificativas racionais ou doutrinárias— de que não se deve mexer com aquilo que se eternizou como natureza!

Ou seja: de que não se deve reverter a rejeição “natural” ao chamado “homem negro”, muito pelo contrário, que se reafirme seu lugar “natural” de subalterno, de inferior, no fim da fila.

Aquele é o trem do horror, da lei da segregação nos Estados Unidos do século passado, dos assentos apartados, reservados à “gente de cor”. É o trem da tocante história “Boy on a Train” (menino andando de trem, tradução livre, minha) do escritor negro Ralph Ellison (1913-1994), um conto em que o menino negro James, de 11 anos, se revolta ao perceber pela primeira vez que o tratamento hostil recebido por sua família num vagão de trem se deve à cor da pele deles.

James, a mãe, viúva recente, e o irmão bebê tinham saído do Sul racista e seguiam para o norte do país, em busca de condições de vida menos indignas. Quando a mãe chora no trem, contando ao menino momentos de violência racista que já vivera, James engole seu próprio choro e sente raiva.

Ele se questiona, acha que “alguma coisa” deveria receber punição por fazer sua mãe chorar. Se ao menos ele soubesse o que era ou quem era que fizera mal à sua mãe, mataria aquilo. “Seria Deus?”, ele se pergunta: “Sim, eu vou matá-lo. Vou fazê-lo chorar. Mesmo que seja Deus. Vou fazer Deus chorar – pensou. Vou matá-lo. Vou matar Deus, sem dó!”.

Quem já foi desumanizado sabe esconder as lágrimas instantâneas que o choque da ofensa provoca. Banido do trem da guerra dos brancos, engole o choro e foge andando. No cotidiano da “paz” brasileira, às vezes disfarça; outras, deixa escorrerem as lágrimas (que se confundiram, aliás, certo dia, com a água de uma piscina onde a pessoa foi chamada de “tão preta quanto um cocô” —e chorou, em choque, os olhos ardendo dentro d’água, mas ninguém viu… porque parecia efeito do cloro).

A pessoa, porém, no fundo, seguirá alimentando a fantasia de que, de fato, um dia, arma na mão, mataria uma pessoa tranquilamente. Mataria também, inclusive, Deus. E quem não mataria?

Marilene FelintoEscritora e tradutora, autora de “As Mulheres de Tijucopapo”. Email: textosfazendaria@gmail.com

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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