Quando “moleques” chegam ao poder a sociedade sofre as consequências

“O moleque é um sujeito que comete duas faltas: a de ter um comportamento errático e a de tentar justificá-lo de forma ignóbil. Com isso ele confirma o caráter indesculpável do seu ato, pois não se trata de um simples erro, mas da ausência de valores civilizatórios e, portanto, da incompreensão de seu lugar na sociedade —que ele reivindica como lugar de exceção.”

MOLEQUES NO PODER – além do comportamento errático, tentam justificá-lo de forma ignóbil

Por Vera Iaconelli

Já faz algum tempo que o Brasil vem cultuando a figura do moleque. Não se trata da criança que ainda não aprendeu como se comportar em sociedade, mas do sujeito que, tendo obrigação de já sabê-lo, se vangloria de sua própria incivilidade. Se levarmos em conta que o perverso é aquele que, perfeitamente ciente das regras e leis, escolhe transgredi-las de forma deliberada, teremos uma boa noção do que está em jogo aqui.

O moleque é um sujeito que comete duas faltas: a de ter um comportamento errático e a de tentar justificá-lo de forma ignóbil. Com isso ele confirma o caráter indesculpável do seu ato, pois não se trata de um simples erro, mas da ausência de valores civilizatórios e, portanto, da incompreensão de seu lugar na sociedade —que ele reivindica como lugar de exceção.

Numa total impostura, o moleque é aquele que costuma dizer que “bandido bom é bandido morto”, enquanto ele mesmo se faz inimputável, não importando o crime que cometeu. Afinal, o bandido eliminável é sempre o pobre e o preto, enquanto que o moleque, protegido pelo estrato social e cor de pele, segue como bastião moral.

A ideia de que haveria alguém eternamente impune atiça nossa fantasia de ocupar um lugar de exceção, da possibilidade de explorar o outro sem sofrer consequências, do gozo sem medida. Daí a representatividade desses sujeitos execráveis, que realizariam aquilo que o fim da infância provou ser impossível: viver sem se responsabilizar pelos próprios atos e sem sofrer as consequências deles. São figuras ultrajantes que ainda servem de modelo para uma masculinidade anacrônica, responsável pelo que de pior se tem feito no mundo. Dito de outro modo, eles estão no poder porque muitos se identificam com seu lugar de privilégio ao invés de lutar contra ele.

Não há nenhuma surpresa que para o moleque a mulher tenha que estar à sua disposição. Mamãe Falei, como se autodenomina o deputado-moleque Arthur do Val, ao tentar justificar sua fala indecente sobre as jovens refugiadas ucranianas, disse que em São Paulo elas são mais inacessíveis.

Lembremos que esta tem sido a justificativa dos“incel” (involuntary celibate), sujeitos que ao se sentirem rejeitados pelas mulheres, se voltam contra elas. Trata-se de um grupo nas redes sociais aos quais foram ligados assassinatos, ataques e estupros das que não cedem a seus encantos. É importante notar que eles recusam aquelas que eventualmente se interessariam por eles —a quem desprezam— tendo como alvo as jovens consideradas mais bonitas e populares (sobre o assunto recomendo: “O direito ao sexo” da filósofa Amia Srinivasan, Editora Todavia, 2021). Desprezam as mulheres comuns, mas não se conformam em ser desprezados pelas socialmente valorizadas, a quem destroem física e moralmente.

Como contraponto às desprezíveis declarações desses e outros sujeitos, gostaria de recomendar o pungente artigo de Jamil Chade, no qual o jornalista relata sua experiência com mulheres e meninas em áreas de conflito. Se você não acabar o testemunho de Chade com lágrimas nos olhos, recomendo o exílio do convívio humano.

As guerras contemporâneas são deflagradas por políticos insanos, apoiados numa elite que sustenta seu poder, mas que jamais participará dos confrontos diretamente. Nelas morrem crianças, mulheres e homens menos afortunados, sem condição de driblar o serviço militar ou fugir. São eles que sofrerão os terríveis efeitos da bravata de moleques.

Vera Iaconelli – Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”. É doutora em psicologia pela USP.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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