Embora nem todos os olhos sejam azuis, todo sangue é vermelho.

“No Iêmen, onde segundo a ONU está instalada a mais grave crise humanitária do planeta, mais de 10 mil crianças foram mortas ou mutiladas num conflito que se arrasta há sete anos.” A pergunta é: será porque o conflito no Iêmen, entre outros, não tem o mesmo destaque que a grande mídia ocidental está dando para a guerra na Ucrânia? Leia o texto abaixo. Ele poderá auxiliar na formação de suas convicções acerca conflito entre Rússia e Ucrânia.

TODO SABGUE É VERMELHO

Por Ana Cristina Rosa

A guerra da Rússia contra a Ucrânia expôs o eurocentrismo vigente. Há conflitos armados em quase 30 países. Populações na Síria, no Afeganistão, na Nigéria, em Mianmar, no Congo, no Iraque, na Somália, no Paquistão… vivem em clima de constante instabilidade, rodeadas pelo medo, pela destruição e pela morte.

No Iêmen, onde segundo a ONU está instalada a mais grave crise humanitária do planeta, mais de 10 mil crianças foram mortas ou mutiladas num conflito que se arrasta há sete anos.

Ainda assim, nunca se viu tamanha comoção ou mobilização como a causada pela “operação militar especial” na Ucrânia, uma guerra que conta com transmissão simultânea e já levou mais de um milhão de pessoas a cruzar fronteiras.

Me solidarizo com os ucranianos. A essa altura da civilização, povo algum deveria enfrentar a barbárie da guerra, que jamais será justa sob a ótica humanitária. Porém a humanidade demonstra sua dificuldade de aprender com os próprios erros.

Mas a Europa respondeu ao sofrimento e ao êxodo dos ucranianos de maneira muito distintaou “com dignidade humana”, como definiu o jornal espanhol El País. “A União Europeia tem agora a oportunidade de corrigir os erros cometidos na crise dos refugiados de 2015 (…) uma vez que não foram aplicadas as normas vigentes e não foi possível chegar a acordo sobre um novo sistema comum de asilo”, dizia trecho de editorial da semana passada.

Os refugiados da vez não precisam vagar por praças ou ruas de países estrangeiros como ocorreu com os sírios. Felizmente estão sendo acolhidos por Estados vizinhos e seus cidadãos. A questão é por quê?

A mudança de atitude seguramente foi motivada pelo identitarismo entre demandantes e demandados, num evidente contraste com a xenofobia e o racismo verificados antes em casos similares e na decisão de dificultar a ultrapassagem de fronteiras por negros atualmente. Embora nem todos os olhos sejam azuis, todo sangue é vermelho.

Ana Cristina RosaJornalista especializada em comunicação pública e coordenadora da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPÚBLICA) – Seção Distrito Federal.

Texto publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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