O COLECIONADOR DE LÁGRIMAS

“O que poderia ser simples não é. O que, aos olhos dos que veem, seria o certo, nas decisões dos que fazem, é o errado. Inclusive, em mim. Que tantas vezes me esqueci de que amadurecer é perder o orgulho e que pedir desculpas é reconhecer que o dia fica mais bonito sem as feiúras dos malfeitos.”

O COLECIONADOR DE LÁGRIMAS

Por Gabriel Chalita

É novamente quaresma. Desde a minha infância, coleciono as lágrimas caídas de tantas histórias narradas em cerimônias religiosas e na cerimoniosa vida dos viventes com os quais convivo. 

O que poderia ser simples não é. O que, aos olhos dos que veem, seria o certo, nas decisões dos que fazem, é o errado. Inclusive, em mim. Que tantas vezes me esqueci de que amadurecer é perder o orgulho e que pedir desculpas é reconhecer que o dia fica mais bonito sem as feiúras dos malfeitos.

Adoeci tantas vezes pela incompreensão dos sentimentos. Era adolescente, quando o amor me explicou a dor. Chorei a primeira paixão. E chorei, na quaresma daquele tempo, o tempo da espera. A dor foi tão forte que desacreditei de algum tempo de paz. Eram pensamentos discutindo com pensamentos, era um diálogo imaginário com um amor que não me amava, era uma incapacidade de saber o fim.

O fim veio e vieram outras paixões. E outros sofreres. E outra teimosa necessidade de amar o impossível. Houve um dia em que, depois de dias de dor, vesti um sentimento de reagir e fui viver novamente. 

Quando o rio adentra em paisagens bonitas, desacredita das que ficam para trás. Segue o curso. O curso do amor não se aprende em escolas de conteúdos, o seu conteúdo é o encontro. E, também, os desencontros. 

É novamente quaresma e o mundo anda desencontrado. Caminhava eu por uma estrada que sei aonde vai, quando ouvi um radialista anunciando o dia da alegria. Não ouvi o que disse antes para afirmar aquela data. Ouvi o depois. Notícias da guerra. A guerra e os seus horrores. A guerra e suas famílias amputadas de alegria. A guerra e a procissão dos enterros. 

Na semana santa da minha infância, eu chorava na procissão do enterro. Por que mataram o Amor? Por que os discursos confundiram e insuflaram o ódio? E, injustamente, pregaram na cruz o pregador do amor? Jesus vence a morte. A luz vai além das sepulturas criadas por homens. É uma passagem que nos reúne para compreender. 

Não compreendo a perversidade. Na minha casa, convido ao convívio os que cultivam as mãos dadas da irmandade. No início da quaresma, há a cerimônia das cinzas. A lembrança de onde viemos. A lembrança do para onde vamos. Somos pó. Pó da terra de que são feitos todos os viventes. Pó das despedidas da terra. Sozinhos. Sem acúmulos de matérias efêmeras. A guerra antecipa a volta de muitos. Injustamente. Incorretamente.

Na quaresma da minha juventude, eu ouvia as explicações sobre o jejum e a abstinência. O jejum da maldade seria o mais proveitoso para a melhoria da humanidade. Jejuarmos das palavras nascidas sem amor, jejuarmos dos julgamentos desnecessários, jejuarmos das insensibilidades que nos diminuem em humanidade. 

Já não mais sou jovem. Prossigo, entretanto, crendo. Creio na luz vencedora que há em mim e que há nos peregrinos meus irmãos. Na que nos abastece do necessário conhecimento de vida. E que nos faz colecionar lágrimas, sim, mas como delicadezas que nossos olhos emprestam à nossa alma para nos aliviar do sopro quente dos dias. Eu choro as emoções bonitas como choro a dor implicante. Choro um filho que reencontra o pai, choro um homem simples que conseguiu aprender a ler, choro uma mulher que encontrou a palavra gratidão, quando me viu em algum canto. Talvez tenha razão o radialista. Talvez o dia da alegria seja o alimento que enfrenta a guerra, as guerras.

É novamente quaresma e o cheiro de algumas flores me suavizam a idade e me emprestam mais alguma força para prosseguir peregrinando.  Quero fazer hoje, e nos dias que se seguem, a oração da bondade. E oferecer essa oração aos esquecidos. Dos meus gestos de amor para o mundo, plantarei em mim uma esperança nova, reconstruidora das partes que se partiram nas partidas. 

Tive que ir muitas vezes. Em outras, tive que deixar ir. Mas permaneço, aguardando a festa que vem depois da preparação. Feliz por ter sobrevivido a tantas estações. Sou o rio que desacredita do que não é bonito para seguir o seu rumo. Rumo ao oceano. Rumo ao que é maior do que eu e que me recebe do jeito que eu sou.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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