Ucrânia, vítima de um círculo vicioso – há muitos países responsáveis por não terem conseguido estabelecer condições para evitar a guerra

“De fato, parece que a Otan e a UE teriam atuado deliberadamente para aumentar o desconforto russo e fortalecer assim os argumentos do autocrata russo.” É isso. Essa guerra não é uma disputa entre “puros” e “impuros”. Trata-se de interesses diversos que no fundo bate de frente com as ambições das classes dominantes, sejam elas da Rússia, europeias ou americanas. A disputa geopolítica na Europa é apenas a ponta do iceberg: em jogo estão os grandes interesses econômicos, que obviamente passam pelo controle do poder político e por consequência, do poderio militar e sua repercussão, por óbvio, no continente europeu, mas também no mundo. Publico abaixo mais um interessante texto para ajudar compor os elementos necessários de uma análise isenta sobre o conflito na Ucrânia.

UCRÂNIA, VÍTIMA DE UM CÍRCULO VICIOSO

Por Enrique Gomáriz Moraga

Nesta fase do conflito, dois momentos devem ser distinguidos: o antes e o depois da agressão da Rússia à Ucrânia.

O primeiro é marcado pela responsabilidade dos diferentes atores de evitar um confronto militar. O atual se baseia na condenação direta da violação do direito internacional que a agressão de Moscou implica.

A responsabilidade de promover a agressão militar na Ucrânia recai sobre o governo de Putin. Mas há muitos outros países responsáveis por não terem conseguido estabelecer condições para evitar a guerra.

A União Europeia (UE) é responsável pela dissolução da clara distinção que existia nos anos 90 entre os interesses da própria UE e os da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no que diz respeito à segurança no continente.

Reunião após reunião, essa distinção foi tornando-se difusa, até que na reunião de 19 de fevereiro da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Munique, tornou-se claro que a identificação da UE com a Otan é quase total.

Isso determina um segundo fator: o ressurgimento do atlantismo ideológico na Europa e nos Estados Unidos.

Os discursos dos representantes ocidentais refletem uma confiança excessiva na dissuasão que a ampliação da Aliança Atlântica representou ao longo das duas últimas décadas.

Isso explica a arrogância demonstrada pelos seus líderes ao rejeitarem quaisquer objeções russas de que essa ampliação afetava a sua segurança e que o caso da Ucrânia era um ponto de não retorno.

De fato, parece que a Otan e a UE teriam atuado deliberadamente para aumentar o desconforto russo e fortalecer assim os argumentos do autocrata russo.

O analista mexicano Carlos Taibo escreveu que Putin é em grande medida um produto da Otan. Deve acrescentar-se que a revitalização da Otan é em grande medida um produto da prepotência de Putin e que esse círculo vicioso infernal é o que teria que ser rompido para evitar uma escalada do conflito.

Isso levou à intervenção russa de 24 de fevereiro, que abriu uma nova fase do conflito.

A decisão de Putin veio acompanhada de apoio institucional na Duma (o Parlamento russo) e da maioria da opinião pública do seu país.

Essa relativa força doméstica levou Putin a ignorar uma máxima frequentemente repetida: na defesa das próprias causas num confronto geopolítico, existem linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas.

Ao perpetrar uma agressão armada, o argumento de Moscou sobre a ameaça ocidental à sua própria segurança desaparece sob a condenação da comunidade internacional.

Com a agressão militar, Putin proporcionou o cenário político desejado anunciado pelos falcões europeus e da Aliança Atlântica.

Conseguiu que a Otan e os Estados Unidos afirmassem ser os verdadeiros oráculos das intenções finais de Putin, que os países da UE reduzissem significativamente as suas diferenças (pelo menos em público) e que a ONU (Organização das Nações Unidas) –cujo secretário-geral, Antonio Guterres, afirmou, não há muito tempo, estar confiante de que a guerra aberta nunca aconteceria– condenassem inequivocamente o governo de Moscou.

Em suma, com a sua agressão, Putin perde muito da sua legitimidade dentro e fora das fronteiras.

Quais foram as razões da escolha de Putin de levar a disputa geopolítica ao confronto armado?

Existem razões de ordem militar, que certamente incorporaram alguns erros de cálculo.

De fato, criou-se o mito, em boa parte graças aos meios de comunicação ocidentais, de que tudo o que está acontecendo está exatamente de acordo com os planos elaborados por um estratego sinistro: Putin.

Essa suposição se distancia muito da realidade.

Como antigo chefe da KGB, Putin está consciente da importância de ter um plano, mas também da necessidade de se readaptar, dependendo do contexto.

Não é certo que ele tenha usado astutamente a opção diplomática do presidente francês, Emmanuel Macron, para camuflar a sua verdadeira intenção de invadir a Ucrânia.

Putin estava disposto a seguir qualquer via para impedir a entrada da Ucrânia na Otan e forçá-la a manter relações estreitas com a Rússia.

Mas a resposta do Ocidente a essas exigências foi uma rejeição de grande repercussão.

Por outro lado, a opção militar não está revelando-se tão simples como poderia ter sido previsto. O cálculo do Kremlin para se afirmar rapidamente em todo o território das duas províncias, Donetsk e Luhansk, falhou.

O governo ucraniano tem sido capaz de construir uma considerável concentração de forças nessa região, o que obrigou a Rússia a tentar impedi-la, pressionando no sentido de ataques dissuasivos noutras partes do território ucraniano. Isso aconteceu na noite de 24 de fevereiro.

Deve-se destacar que a Rússia não tem capacidade para encarar uma invasão territorial generalizada, pois estima-se que uma ocupção de um território do tamanho da Ucrânia exigiria efetivo de 1,5 milhão.

Por conseguinte, com algumas exceções, os ataques concentram-se em algumas cidades fronteiriças e em Kiev, que fica apenas a 60 quilômetros da fronteira com a Belarus.

Ao comprovar que não encontrava obstáculos no caminho para Kiev, Moscou cometeu outro erro de cálculo: pensar que a cidade cairia imediatamente e que poderia fazer do governo de Volodimir Zelenski um alvo militar direto.

Mas a apreensão de Kiev e do seu distrito governamental, que deveria ter ocorrido na noite de sábado, 26 de fevereiro, não aconteceu porque a mobilização das Forças Armadas e das milícias garantiu a autodefesa da cidade.

Kiev pode cair nos próximos dias, mas cada dia que passa é mais um passo para o desencadeamento de uma guerra de guerrilha no resto do país, algo que a Rússia quer evitar.

Um cenário mergulhado numa guerra irregular prolongada é o que Moscou não deseja. Entre outras razões porque, embora Putin tenha atualmente o apoio majoritário dos atores políticos e da população russa, essa situação pode mudar rapidamente.

A manutenção de uma guerra aberta durante demasiado tempo e sem o menor apoio político além das fronteiras, associada a sanções econômicas ocidentais, pode lembrar à população russa o espectro do fracasso da guerra no Afeganistão.

Putin também pode estar errado acerca das consequências dessa provação militar para a política interna do seu país. É por isso que acaba de abrir a porta a possíveis negociações de cessar-fogo com as autoridades de Kiev.

E, embora a princípio ele tenha encorajado os comandantes militares ucranianos a tomar o poder para negociar com eles, isso parece ser pouco claro, entre outras razões porque muito depende da rapidez com que ele consegue capturar Zelenski e o seu governo.

É possível que o conflito armado na Ucrânia, longe de terminar, esteja apenas no início.

Isso é algo que a Ucrânia, que é em última análise a verdadeira vítima dessa guerra e do indesejável círculo vicioso que a precedeu, sofrerá em qualquer caso.

Enrique Gomáriz MoragaSociólogo, participou da Zona Aberta e da refundação do Leviatã. Foi consultor internacional de PNUD, UNFPA, GIZ, IDRC e BID

Tradução do espanhol por Giulia Gaspar.

Publicado originalmente no portal Latinoamérica21

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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