Guerra – poema de Cecília Meireles

Guerra

Tanto é o sangue 
que os rios desistem de seu ritmo, 
e o oceano delira 
e rejeita as espumas vermelhas. 

Tanto é o sangue 
que até a lua se levanta horrível, 
e erra nos lugares serenos, 
sonâmbula de auréolas rubras, 
com o fogo do inferno em suas madeixas. 

Tanta é a morte 
que nem os rostos se conhecem, lado a lado, 
e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso. 

Oh, os dedos com alianças perdidos na lama… 
Os olhos que já não pestanejam com a poeira… 
As bocas de recados perdidos… 
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes… 

Tanta é a morte 
que só as almas formariam colunas, 
as almas desprendidas… — e alcançariam as estrelas. 

E as máquinas de entranhas abertas, 
e os cadáveres ainda armados, 
e a terra com suas flores ardendo, 
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas, 
e este mar desvairado de incêndios e náufragos, 
e a lua alucinada de seu testemunho, 
e nós e vós, imunes, 
chorando, apenas, sobre fotografias, 
— tudo é um natural armar e desarmar de andaimes 
entre tempos vagarosos, 
sonhando arquiteturas. 

Cecília Meireles – da obra “Mar Absoluto

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