O carnaval e o barulho dos desejos – crônica de Gabriel Chalita

“Minha irmã Renata não é das leituras, se diz mais prática e mais objetiva do que eu. Ontem mesmo, ela me repreendeu.
Estávamos em conversas de amigas. Gosto de receber na minha casa. Preparei uma pamonha com cheiro de interior e café com sabor de quentura. Foi quando voltei ao tema da morte do meu marido. E, sem perceber, fechei os sorrisos. Faz apenas seis meses que ele se foi. E desfilei elogios e lamentei a ausência.”

O CARNAVAL E O BARULHO DOS DESEJOS

Por Gabriel Chalita

É carnaval. Ficaremos em casa, Renata, minha irmã, e eu. 

Nossos filhos se foram em disposição para os encontros. Eu disse dos riscos. Dos necessários cuidados. Da insaciável fome de um alimento que nem se sabe. Que tanto querem eles? Um amor? Um distribuidor de afetos? Um amenizador de carências?
Ouço o barulho dos desejos. Temem a solidão e a rejeição. E rejeitam, assim, a si próprios. São sempre os outros os abastecedores do que falta. Saem em busca de um encontro e voltam desencontrados.

Não é de hoje a poética dos olhares que olham olhos errados e que repetem os erros como se não houvesse aprendizagem para as escolhas. As ilusões nos preenchem de impossibilidades. E, assim, vamos descartando aconchegos. Há os que se pensam mais sábios e se trancam, preferem o silêncio aos sofrimentos do amor.

Vivi uma única história de amor, não sou, talvez, a mais prendada para dizer com a vida sobre o tema. Mas sou observadora de gentes e de livros. Leio os romances mais profundos e me abraço ao que nunca tive. Coleciono personagens em mim e posso dizer frases de encantamento que elas disseram. 

Minha irmã Renata não é das leituras, se diz mais prática e mais objetiva do que eu. Ontem mesmo, ela me repreendeu.
Estávamos em conversas de amigas. Gosto de receber na minha casa. Preparei uma pamonha com cheiro de interior e café com sabor de quentura. Foi quando voltei ao tema da morte do meu marido. E, sem perceber, fechei os sorrisos. Faz apenas seis meses que ele se foi. E desfilei elogios e lamentei a ausência.

Renata rasgou minha prece de dor e avisou à minha memória: “Pare de chorar, Elaine, seu marido era um porre, que Deus o tenha”. Eu disse nada. Renata é muito reveladora de sentimentos. Diz o que vem. Sem muitos filtros. “Estamos entre amigas, não precisa inventar passados”.

Ocupei a boca com a pamonha para pensar em uma discordância. Ela continuou, “E eu falo por mim. Eu melhorei depois que meu marido morreu. Comecei a viajar, a relembrar a alegria, a entender que a vida tem fases, e eu não reclamo da que estou vivendo, bendita viuvez”. “Mas a gente acha falta, Renata”, foi o que eu consegui dizer. As outras pareciam mais concordar com ela do que comigo. 

Arnaldo foi um bom marido. Era chato, sim. Talvez eu também seja. Os dias vão nos levando tempo e nos trazendo manias, implicâncias, cansaços. Há muito não nos amávamos. Nos desacostumamos, talvez. Histórias vieram a mim sobre histórias dele com outras mulheres. Não sei por quê, mas não sofri. Me desocupei de explicar amor. Cuidei dos filhos, dos dias, da casa. E vivi nas leituras o que não vivi na vida. Cada um encontra seu jeito, penso eu.

Otávio e Laura, nossos filhos, tinham pouca intimidade com o pai. Preferiam o meu colo, desde sempre, ou minhas invenções na cozinha ou minhas faxinas festivas. Brincávamos de lavar o quintal com esguicho de mangueira. E nos aliviávamos do calor.  Eles me revelam sentimentos até hoje. Seguem engatinhando na compreensão dos desejos.

Laura não quer compromissos sérios. Disse que nunca vai querer. Não quer homem decidindo sua vida. Otávio é de um romantismo exagerado. Diz “Eu te amo”, sem compreender as consequências. Quando desalinha uma sua história, chora o choro sofrido da dor de amor. O que eu digo é que o tempo ajeita e incentivo a compreensão da dor. A dor passa e lapida. E fortalece o amanhã.

Chorei meu marido, sim. Não foi a história que eu li, mas foi a história que eu tive. 
O resto é decisão. É vontade de acordar a felicidade todos os dias e viver. E limpar os assoalhos sujos de verdades alheias. Eu tenho a minha verdade. Dura e bela como um alicerce que me alinha para prosseguir.

Vou colocar umas músicas antigas de carnaval. Gosto muito. E dizer à Renata que ela tem toda razão. E atentar aos nossos desejos que também barulham.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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