ATAQUE DA RÚSSIA À UCRÂNIA BUSCA ESTABELECER NOVA ORDEM MUNDIAL

“A Rússia só invadiu a Ucrânia porque avalia que Ocidente está em decadência, o que se manifesta sobretudo nas “crises de ocidentalização forçada” após 1989, e não lhe ofereceria resistência armada, avalia professor. Mais que a tomada de um país específico, ação militar russa tem como objetivo a reconfiguração geopolítica do mundo, com a afirmação de outros centros de poder, o que parece tornar os conflitos com o Ocidente inevitáveis.”

Lenin, o líder da Revolução Russa em ação

A PERCEPÇÃO RUSSA DE QUE OCIDENTE ESTÁ EM DECADÊNCIA FOI FUNDAMENTAL PARA AÇÃO MILITAR DE PUTIN

Por Antonio Gelis Filho

Que razões levaram a Rússia a dar um passo tão ousado e arriscado como invadir a Ucrânia? Ainda não está clara a sua estratégia, se forçar uma conferência de paz na qual a neutralidade da Ucrânia será estabelecida, transformando-a em outra Finlândia, ou se ocupará partes do país, anexando-as ou tornando-as independentes. Nem sequer o sucesso de sua operação está garantido. O custo será elevado.

Os laços históricos entre Rússia e Ucrânia e a expansão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para o Leste Europeu são apontados como causas das ações russas. Acrescento a elas um outro motivo: a possibilidade de a Ucrânia se nuclearizar.

Há, contudo, um ponto central que perpassa tudo isso —a percepção russa de que o Ocidente está em decadência. São três os principais sintomas disso: instabilidade social e política, sequência de insucessos militares e as “crises de ocidentalização forçada” que marcaram a expansão global da ordem liberal após 1989.

Sem isso, a Rússia não teria iniciado sua campanha militar. Essa percepção de decadência, correta ou não, é essencial para que se entenda a lógica de Vladimir Putin. A Rússia agiu não apenas pelo valor sentimental e estratégico da Ucrânia; agiu para se posicionar como inquestionável potência geopolítica global. Alguém que pode até ser odiado, mas que deve ser respeitado, ou mesmo temido. 

Os fatores históricos são complexos. Em síntese, a atual Ucrânia pode ser dividida em três partes.Uma, sul-oriental, guarda vínculos históricos de longa duração com a Rússia. Engloba a região do extremo leste (Donbass) e o litoral do mar Negro. A segunda, a porção no extremo ocidental, passou por séculos de dominação lituana, polonesa ou austríaca. O restante possui características intermediárias.

Contingências, em especial a formação da União Soviética, levaram à criação de uma nação cujo território atual se formou apenas em 1945. E a Crimeia seria transferida para a Ucrânia em 1954, como medida administrativa soviética, e na condição de região autônoma.

Algumas pessoas associam a conquista de Kiev, a capital ucraniana, a uma nostalgia russa pelo que seria o seu “berço”. A verdade é bem mais complexa. De forma resumida, podemos dizer que a região em torno de Kiev foi realmente o início do povo que seria conhecido como “rus”, uma mistura de eslavos com conquistadores escandinavos que desciam os rios.

Todavia, a conquista da “Rússia de Kiev” pelos tártaro-mongóis, no século 13, interrompeu essa sequência histórica. O domínio destes sobre os russos terminaria oficialmente apenas em 1480. Durante esse tempo, Moscou tornou-se o centro geopolítico dos povos russos, e as regiões que hoje formam a Ucrânia foram conquistadas por lituanos e poloneses (porção centro-ocidental) e pelo Canato da Crimeia (porção sul-oriental, litoral do mar Negro), que se tornaria vassalo do Império Otomano. Partes permaneceriam, no centro e no leste do país, sob controle instável dos cossacos.

Enquanto isso, em Moscou, Ivan, o “Terrível”, cria o czarado em 1547 e dá início à expansão territorial russa. Boa parte do atual território ucraniano foi conquistada pelos russos em várias etapas durante os séculos 17 e 18, em guerras contra a Polônia e contra os otomanos.

Restaram sob domínio polonês ou austríaco as porções do extremo ocidental da Ucrânia. Seu principal centro é a cidade de Lviv (em ucraniano; Lvov, em russo). A cidade foi conquistada pela Polônia em 1349. Em 1774, passaria para a Áustria e voltaria ao domínio polonês após a Primeira Guerra. Até mesmo um ramo da Igreja Católica, que segue o rito oriental (semelhante ao rito ortodoxo), mas se submete ao papa, ali se organizou.

Apenas em 1945, após quase 600 anos de domínio católico, essa região seria definitivamente incorporada à atual Ucrânia, como parte da União Soviética. Sua história é muito ligada a países ocidentais.

Não surpreendentemente, foi da Ucrânia ocidental que partiu a mais obstinada oposição ao governo pró-Rússia em 2014. Também não por acaso, no mesmo ano a península da Crimeia foi anexada pela Rússia, separando-se da Ucrânia. O idioma russo predomina na Crimeia e em regiões do leste; o ucraniano é mais comum quanto mais para oeste se caminha. Mistura ou alternância dos dois é comum. Há violência pontual entre os dois grupos.

Putin afirmou, no discurso que abriu a guerra,que os responsáveis por queimarem vivos dezenas de russófonos em um hotel em Odessa, na Ucrânia, em 2014, serão punidos. O evento não apareceu na mídia ocidental; os russos, contudo, acreditam que tenha acontecido.

A atuação da Otan é outra peça importante nesse quebra-cabeça. Em síntese, a Ucrânia sempre acena com sua hipotética entrada na organização militar ocidental. A Rússia replica que o Ocidente não cumpriu sua parte de suposto acordo pós-1989, expandindo-se para o leste e incorporando países bálticos, Polônia e outros. Essa interpretação de que a expansão da Otan é a causa por trás das ações russas é uma “verdade sabida”, muito citada nos últimos dias.

Pessoas usam martelos para destruir a estátua de Vladimir Lênin em Kiev
Foto: Reuters

Tenho dúvidas, porém, sobre sua real importância no contexto atual. Especialmente após a guerra de 2008 dos russos contra a Geórgia, quando uma Rússia muito mais fraca aniquilou a infraestrutura militar construída pelo Ocidente no país, o ingresso da Ucrânia na Otan sempre foi improvável.

O Kremlin me parece jogar com essa situação. Ela fornece uma ótima justificativa para o reajuste geopolítico do “near abroad”, o entorno russo, de acordo com seus planos. E apenas os saudosistas da Guerra Fria, grupo infelizmente destacado no pensamento geopolítico ocidental, conseguem acreditar em um desejo russo de retomar os satélites soviéticos na Europa Oriental.

A expansão desejada pela Rússia, em tempos de guerra cibernética e espacial, é econômica. Ou seja, busca anexação ou satelização apenas daquilo que for essencial estrategicamente e não for se rebelar continuamente. Os países da Europa Oriental possuem duvidoso valor sob o primeiro critério e nenhum sob segundo. O mesmo vale para o suposto plano russo de recriar a União Soviética.

Ucrânia bombardeada

A possibilidade de Kiev se nuclearizar também é crítica. Moscou vê essa questão como sendo de vida ou morte. Sabia da capacidade ucraniana de desenvolver, se não bombas nucleares, ao menos “bombas sujas” (convencionais contendo material radioativo) e prestava muita atenção nisso.

Mais do que a expansão da Otan, um ator racional, bombas nucleares ou sujas nas mãos de um governo instável e hostil, como o da Ucrânia, é algo inaceitável para Moscou. Coincidência ou não, tomar o complexo nuclear de Tchernóbil foi prioridade na ação russa.

De toda forma, como já destaquei, creio que os russos não teriam agido se não percebessem um enfraquecimento do poderio ocidental, no qual as “crises de ocidentalização forçada” têm papel preponderante.

Elas resultam da instabilidade gerada em uma sociedade pela tentativa de transformação de estruturas econômicas, políticas e sociais históricas por meio da intervenção de governos, forças armadas ou ONGs ocidentais, em direção por estes estabelecida. Caracteriza a expansão geopolítica ocidental após 1989.

É uma versão moderna da “salvação das almas dos gentios”, tão cara aos colonizadores ibéricos. Nessa visão, não apenas os valores e instituições ocidentais, ainda que não consensuais no próprio Ocidente, devem ser incorporados por sociedades que os desconhecem ou os rejeitam; devem sê-lo ainda na velocidade desejada pelos “missionários” ocidentais.

O resultado final é uma longa série de vitórias mais ou menos tímidas e de fracassos explícitos. Os “anjos caídos” de Cabul, pessoas desesperadas despencando de asas de aviões durante a tomada da capital afegã pelo Talibã, em agosto do ano passado, foram a tradução visual mais dramática do processo.

Na Ucrânia criou-se, depois de protestos em massa que derrubaram um governo pró-Rússia em 2014 e levaram ao poder um pró-ocidental, a imagem de um país cuja natural inclinação para o Ocidente estaria sendo reprimida por Moscou. A reação da população da Crimeia, que decidiu em plebiscito pela volta da península à Rússia, já sugeria algo diferente. A verdade é que começou na Ucrânia em 2014 não um regime estável, mas sim uma nova crise de ocidentalização forçada.

O soft power ocidental teria encontrado seus limites na região. Cansados de seus fracassos, preocupados com seu instável front interno, divididos politicamente, os países ocidentais não teriam estômago para uma guerra de grandes dimensões, apostaram os russos. Sanções, hashtags, mobilização da “comunidade internacional” e discursos grandiloquentes, sim; sangue, não. Parecem ter acertado, ao menos por enquanto. 

Como os ocidentais podem reagir? As possibilidades de curto prazo —sanções, ataques cibernéticos, rompimento de relações— não atacam o problema central: o Ocidente já não produz sociedades estáveis e prósperas como antes. 

Pouco adianta falar sobre a suposta “liberdade” ocidental quando desigualdade, subemprego, degradação ambiental e urbana, violência, corrupção, falta de perspectivas e animosidade política são a realidade de suas populações.

Basta retomar o progresso —real, constante, distribuído, pacífico— e Rússia e China deixarão de ser problema. O projeto ocidental é indissociável da ideia de que seu progresso material e social é sempre superior ao de qualquer outro projeto. Dificilmente sobreviverá sem isso.

A ascensão da China e a ressurgência da Rússia como potência indicam a necessidade, ressaltada pelas crises de Afeganistão, Síria e Ucrânia, de atualizar a configuração geopolítica mundial, com a afirmação de outros centros de poder, dotados de vontade própria e essencialmente diferentes. O problema, contudo, é que não existe, por parte de lideranças políticas ocidentais, vontade coletiva para tanto. Para o Ocidente, o ano de 1989 nunca acabou.

Antonio Gelis FilhoProfessor de geopolítica na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, especialista em Rússia e negócios internacionais

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

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