SAUDADE, MÃE – crônica de Gabriel Chalita

“Quando você se foi, eu desalinhava os seus cabelos e dizia palavras de amor naquela cama de hospital. Eu dizia e ouvia a sua respiração e sentia uma paz tão linda. Subitamente, sem solavancos, sem alterações, você silenciou a vida e foi viver a eternidade.”

Por Gabriel Chalita

Acordei sem você no dia do seu aniversário. O sono foi interrompido por uma luz que atravessou os meus sentidos e que me lembrou de que festa não haveria. O sonho foi bom. Foi você. Foi o seu sorriso aguardador de tantos aniversários. 

Na festa dos seus setenta anos, eu escrevi um livro, “Carta aberta para minha mãe”. Ver, na lembrança, você folheando as páginas enfeitadas com sua história e sorrindo a alegria da vida intensa, inteira, me traz, ainda hoje, o sentimento da gratidão.

Nos oitenta, paramos o dia para comemorar, desde os inícios, o dia lindo em que, na Síria, você nasceu. De mãos dadas comigo, você emprestava um gosto pela vida que abastecia de vida a minha, as nossas vidas.

Nos outros anos, também houve festa. Sempre. Seu abraço generoso desaconselhava qualquer pessimismo. E como você sofreu, mãe! O enterro de dois filhos. Tristes dias. Mãe nenhuma deveria enfrentar essa dor. No seu luto, o alívio vinha da fé. Os meus irmãos, prematuramente partidos, permaneceram em você. Meu pai, também. Seu bom marido José. 

Enquanto escrevo, sou capaz de sentir o sentir de vocês. Olho para dentro de mim e encontro vocês. Dizendo dizeres de amor. Agasalhando os meus dias com lembranças dos dias bons que lapidaram a minha alma.
Sou vocês dois e sou tantas outras histórias que fui vivendo com o plantio de vocês em mim. 

Nós nos prometemos uma festa linda de noventa anos. Mesmo nos dias em que nos olhávamos no hospital, imaginávamos um futuro mais prolongado. E você foi antes, minha mãe, antes de que eu me acostumasse a compreender a vida sem você. 

Não gosto da palavra inveja, mas peço pausas ao meu gosto para o seu uso aqui. Eu tenho, sim,  uma confessa inveja, de quem tem mãe. Como eu gostaria de ouvir, “Meu filho”. Como seria bom o convite, “Deita aqui, no meu colo, filho, descanse em mim os seus dias preocupados”. Não tenho mais colo. Não tenho mais a sua voz cheia de histórias de amor. 

Foi assim que despertei nesse domingo. Incompreendendo a ausência e agradecendo a presença. Olhei para a nossa foto que me olha todas os dias. E divaguei na saudade. Teria sido uma festa com música, com dança, com comidas bem preparadas, com sorrisos à disposição, desde o amanhecer até o adeus da luminosidade.

Quando você se foi, eu desalinhava os seus cabelos e dizia palavras de amor naquela cama de hospital. Eu dizia e ouvia a sua respiração e sentia uma paz tão linda. Subitamente, sem solavancos, sem alterações, você silenciou a vida e foi viver a eternidade.

Naquele fim de dia, toda a nossa história foi explicando que o fim é uma ilusão. E que, para a crença na permanência, basta um abrir das comportas do nosso interior para o Sagrado que, em todos os exteriores, manifesta sua presença. Deus está nos mares que nadamos juntos tantas vezes. Nas montanhas que cruzamos juntos. Nas flores que nos surpreenderam. Nas delicadas mãos de crianças tateando a vida e equilibrando os desconhecidos dos amanhãs. 

Como são os aniversários por aí? Meu pai, o homem que te amou desde a primeira vez em que, em uma calçada em um interior, te viu, deve estar com o sorriso brincalhão que te envolvia em amor.  Os seus pais. Os meus irmãos. Os seus tantos que já estão aí. 

É mistério demais para explicações racionais. O que importa é sentir. E eu sinto, mãe, que o sorriso continua lindo aí. E que, agora, não há mais pausas na felicidade. Por aqui, eu ainda choro, eu ainda cambaleio nas ausências, eu ainda sofro o existir. A vida é sofrimento. Quem diz o contrário ou o faz por ingenuidade ou o faz por acreditar na palavra como poética dos alívios. 

A vida é sofrimento, sim. Mas é também primavera. É encontro de amor. É encontro de amor que gera vida. Todo tipo de vida e, também, a minha. Nosso cordão, mãe amada, prossegue, até o iluminado reencontro. 

Foi isso que você me ensinou. E o meu pai.
Saudade de vocês. Feliz aniversário!

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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