“Um desamoroso jantar” é o título de minha crônica de Gabriel Chalita

“Quando nos conhecemos, um luar enfeitou a noite com tanta beleza que ousamos desacreditar da existência das sombras.
E, assim, nos amamos pela primeira vez. E, sempre que havia luar, havia poesia de gratidão pelos nossos corpos sendo apenas um.”

Por Gabriel Chalita

Sempre acreditei que não se desperdiça um amor. Foi assim que fui esculpindo as verdades dos meus sentimentos.

Enviei uma mensagem para ele, dizendo que nos encontrássemos, pedindo que deixássemos as armaduras guardadas em algum armário de difícil alcance, que elas, com o tempo e a nossa decisão, se empoeirassem pelo desuso. Foi ele sucinto no aceite. 

Quando nos conhecemos, um luar enfeitou a noite com tanta beleza que ousamos desacreditar da existência das sombras.
E, assim, nos amamos pela primeira vez. E, sempre que havia luar, havia poesia de gratidão pelos nossos corpos sendo apenas um.

Os dias também experimentam invernos. Os frios nos levam ao erro. E o belo, então, se desfaz em sabotagens. O amor sempre foi uma certeza entre nós. Mas a tal sabotagem nos levava a imaginar o que não havia, a descuidar da consciência do prazer de estar. Como era bom o dormir juntos e o acordar com os olhos de gratidão. O “eu te amo” nunca foi economizado. Mesmo nos dias de ausência de calor. E, por impaciências, nos despedimos.

Era um domingo entristecido. Eu insisti algum pensamento, mas ele se foi assombrado por algum medo. Fui ter com a solidão a esperança de um recomeço. As distâncias apagam os dias ruins. E a lembrança me oferecia um delicado brinde de amor. Ao meu amor. 

E, então, chegamos ao jantar. Uma lua tímida, bem diferente daquela da primeira noite de anos atrás, oferecia alguma esperança. Ao contrário de mim, ele parecia decidido a abraçar apenas as palavras de adeus. Eu fui deslizando, com suavidade, lembranças de um tempo bom. Fui prometendo um outro eu. Assumi erros e disse a canção do desperdício. Não se abandona quem nos quer bem, não se oferece despedida enquanto a mesa ainda está posta. 

Ele, em ditos contraditórios, deixou as palavras ofenderem os meus sentimentos.
Prossegui. Sei das suas emoções teimosas.
Falou ele de sua mãe e do quanto ela gostaria de nos ver juntos novamente. Falou acenando negativamente como se nada soubesse ela. Disse do bom momento que vivia e das tantas possibilidades de encontros que vinham surgindo em sua vida. Eu vi perversidade em seus relatos. E lamentei a despreocupação que teve ele com o meu sofrimento.

Silenciei a dor e toquei em seu rosto com delicadeza. E foi, então, que ele me disse que parasse de insistir, que eu não fizesse isso comigo, que eu não perdesse a minha dignidade. E disse isso usando a vestimenta da arrogância. Sorri para dentro, em paz, e os meus olhos explicaram que dizer amor a quem se ama jamais significará desperdício. Não. Não é indigno revelar sentimentos, indigno é oferecer desamor.

Ele saiu, orgulhoso do seu não, dos seus dizeres duros empenando as torneiras de alguma esperança. E eu rezei em gratidão por não ter rasurado nenhuma das minhas emoções. A lua me olhou triste, mesmo sabendo que era apenas uma noite passageira. O sol ainda não me explicou que a vida prossegue, mas vai explicar. O tempo é sábio e coloca as coisas no lugar. E, novamente, a disposição para a sinceridade do amor será a afinação do meu dizer. 

Não é a primeira vez que me despeço de um amor. E não será a última em que me disporei a proclamar que, sem amor, a vida é apenas uma canção silenciosa aguardando cantar.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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