Sergio Moro: diante de suas intervenções e seu histórico, é indecifrável a crença de que o ex-juiz poderia governar o Brasil

“Seu histórico demonstra uma sucessão de equívocos, um grande vazio de ideias, além de uma notória subserviência a um governo sobre os quais pesam acusações gravíssimas de crimes contra a humanidade.

Por Silvio Almeida

Tenho tentado acompanhar as peripécias do pré-candidato à Presidência da República Sergio Moro com o intuito de conhecer melhor este personagem tão controverso a quem parte da sociedade brasileira já deu tanta atenção.

Entretanto, as palestras e entrevistas de Moro me trouxeram ainda mais dúvidas e nenhuma resposta sobre este homem que quer liderar um dos países que, queira-se ou não, é um dos mais importantes do mundo. Das intervenções públicas de Sergio Moro só consegui extrair dois enigmas.

O primeiro enigma é o que chamo de pessoal. Este sequer arrisco decifrar porque a mim me parece tarefa de área que não domino, a psicologia. Talvez os versados em esquadrinhar os afetos e os processos de subjetivação possam dizer como alguém que nada entende dos problemas brasileiros possa se apresentar tão triunfante como solução para um país devastado. Que mecanismos produzem tão elevada autoestima?

Algo que, para mim, é completamente misterioso é a forma como o pré-candidato trata —ou maltrata— a questão econômica. É absolutamente compreensível que não se conheça determinados assuntos, especialmente temas complexos como economia brasileira. Mas o que é estranho é que ao candidato são feitas sempre as mesmas perguntas e ele sempre dá a mesma resposta, que invariavelmente nada tem a ver com economia e que termina com a palavra “corrupção”.

O que não entendo: se a pessoa sabe que sempre lhe farão as mesmas perguntas, porque não se preparar? Por que não estudar os temas que são de interesse nacional? Não quero acreditar que seja falta de tempo, até porque o candidato é um ex-juiz (juge, em francês; judge, em inglês) e até já passou em concurso público. Seria o despreparo apenas uma performance? Uma espécie de farofa no chão para demonstrar humildade? Ou uma estratégia genial a que teremos acesso em um documentário daqui a algumas décadas? Mistério…

O segundo enigma é político. Que o indivíduo acredite em si mesmo e que tenha desenvolvido um mindset para atingir suas ambições é algo que anda na moda. Mas do ponto de vista político, é enigmático o apoio que determinados setores da sociedade brasileira têm franqueado ao ex-juiz. Moro adquiriu fama após sua atuação como “juiz-xerife” na operação Lava Jato. Estranho é que tudo que lhe fez famoso e que pretensamente o credenciaria para ser presidente do Brasil fracassou rotundamente.

Explico: sua luta contra a corrupção, revelou-se mais tarde, foi feita com reconhecida ilegalidade, abuso de autoridade, lawfare (utilização do sistema de justiça para atingir adversários políticos) e, como bem demonstrou o advogado e professor Walfrido Warde em seu livro “O espetáculo da corrupção”, às custas da destruição da economia brasileira.

Na sequência, Moro, “o incorruptível”, tornou-se ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro, candidato diretamente beneficiado com suas ações enquanto juiz. E como ministro da Justiça não apresentou nada do que se esperaria de um ministro da Justiça, como, por exemplo, a apresentação de um quadro jurídico para o desenvolvimento econômico do país, bem como propostas para a racionalização do sistema de justiça e para a instituição de políticas de segurança pública em consonância com os direitos humanos.

Seu histórico demonstra uma sucessão de equívocos, um grande vazio de ideias, além de uma notória subserviência a um governo sobre os quais pesam acusações gravíssimas de crimes contra a humanidade.

Sergio Moro é um grande enigma, mas na forma de uma esfinge que sempre ganha, seja qual for a circunstância. Ou seja: se ele não for decifrado, poderá nos devorar a todos nós; mas também se for, irá continuar devorando o Brasil, o que, convenhamos, ele tem feito já há alguns anos.

Silvio Almeida – Advogado, professor visitante da Universidade de Columbia, em Nova York, e presidente do Instituto Luiz Gama.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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