Faz escuro, mas…

“Cientistas sociais, historiadores, antropólogos e psicólogos podem aprofundar as causas do nosso desacreditar sistêmico. Os estudos, porém, permitem algumas leituras. A confiança entre cidadãos e nas instituições é condição para o desenvolvimento econômico e o bem-estar social.”

Por Valdecir Pascoal

A escuridão da hora veio a lume neste janeiro com um estudo divulgado pelo BID sobre o nível de confiança entre as pessoas na América Latina e Caribe (ALC), em que transparecem os tristes números do Brasil. Apenas 5% da população diz que confia nos outros, contra 13% na ALC e 42% nos países mais desenvolvidos que formam a OCDE.

Surpreso com o padrão generalizado de desconfiança do brasileiro, pensei que pudéssemos padecer de uma espécie de Transtorno Social de Personalidade Paranoide. Foi aí que lembrei de outra pesquisa recente feita pelo Datafolha sobre o grau de confiança em nossas instituições. Todas elas – os três Poderes, Min. Público, Partidos, Imprensa, Forças Armadas, Empresas, Redes Sociais – perderam confiabilidade em relação a medições anteriores. A rigor, existe coerência entre as pesquisas BID e Datafolha. As instituições não existem por si mesmas, são feitas por pessoas. Se há desconfiança entre as pessoas, haverá sobre as instituições. 

Cientistas sociais, historiadores, antropólogos e psicólogos podem aprofundar as causas do nosso desacreditar sistêmico. Os estudos, porém, permitem algumas leituras. A confiança entre cidadãos e nas instituições é condição para o desenvolvimento econômico e o bem-estar social.

O que diferencia os países da OCDE, por exemplo, é a melhor educação, a menor desigualdade, a melhor qualidade da democracia e dos níveis de accountability (transparência, prestação de contas e controles), a capacidade de inovação, a consciência climática e a segurança jurídica.

Aqui, às tradicionais mazelas, some-se o retrocesso na transparência, destacando o “orçamento secreto”, o calote dos precatórios, o enfraquecimento dos controles e do combate à corrupção, a baixa produtividade pública e privada, sem esquecer as promessas eleitorais não cumpridas e a falta de um projeto de país capaz de diminuir o hiato entre a realidade e o ideal constitucional.

Superar a escuridão não é simples. Em meio a tantas pedras, restam dois caminhos: acomodar-se com o destino de nossos tristes trópicos vaticinado por Lévi-Strauss – “O Brasil vai passar da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”; ou agir com a esperança humanística imaginada neste diálogo: Gandhi: – A mudança está em cada um. Seja a mudança que você deseja para o mundo; Thiago de Mello: – Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem… Que o homem confiará no homem como um menino confia em outro menino. Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar e os girassóis se abrirão dentro das sombras. 

Valdecir Pascoal –  Conselheiro do TCE-PE. Foi presidente da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon). Autor dos livros: “Uma nova primavera para os Tribunais de Contas” (Fórum) e “Direito Financeiro e Controle Externo”. 

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

Para ilustrar ainda mais o artigo acima segue abaixo o poema interpretado pelo grupo Tarancón.

“Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre
agora vale a alegria
que se constrói dia a dia
feita de canto e de pão.”

Sobre joaoantonio60

Traço de União é um espaço para aqueles que defendem a democracia, a ciência e a preservação do Planeta Terra - azul e redonda.
Esse post foi publicado em Cultura. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s