Elza Soares, a maior cantora brasileira de todos os tempos

“Elza Soares não se comportava como cantora. Assim como Ella Fitzgerald e outras grandes, ela era um instrumento a mais na banda. Se integrava e entendia tudo o que se passava na complicada e intrincada rede musical que a cercava. Quebrava tudo, como se diz na gíria dos músicos.”

Elza Soares. Foto: Marcos Hermes/Divulgação

Por Julinho Bittencourt*

Há muito o que dizer – e tem sido dito por esses dias – sobre Elza Soares, sua carreira, atitudes, militância e, sobretudo, sua obra. Não lembro de, durante toda minha vida de apaixonado por música ela não estar presente. Antes de chegar ao planeta, ela já brilhava no ano de em 1959 em todo o país com uma versão para “Se acaso você chegasse”, samba de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, lançado em 1938, mas alçado à modernidade definitiva na sua voz.

Curiosamente, a canção tem um dos versos mais machistas da nossa música: “de dia me lava a roupa, de noite me beija a boca, e assim nós vamos vivendo de amor”. Décadas depois, sua intérprete acabou se transformando em uma das grandes lutadoras pela causa da mulher, principalmente da mulher negra.

Atravessou gerações

Minha mãe adorava Elza Soares, eu também e minhas filhas idem. Essa sua capacidade de atravessar 60 anos se renovando, se transformando, talvez seja o ponto que mais chama a atenção em sua obra. Invariavelmente, artistas passam a maturidade repetindo o que fizeram durante a juventude. Não há mal nenhum nisso. Pode colocar nesta conta alguns dos maiores do planeta, como Paul McCartney, por exemplo.

Elza não. Seus discos são tão diversos entre si que parecem ter sido feitos por artistas diferentes. Do samba e samba-jazz, do início da carreira, para os sons eletrônicos com que encerrou sua discografia, há um abismo, que ela sempre saltou com insuspeita coragem artística.

Elza Soares não se comportava como cantora. Assim como Ella Fitzgerald e outras grandes, ela era um instrumento a mais na banda. Se integrava e entendia tudo o que se passava na complicada e intrincada rede musical que a cercava. Quebrava tudo, como se diz na gíria dos músicos.

Dois tempos

Vi ela cantar em dois tempos distintos. Uma vez no início dos anos 2.000, com uma excelente banda de apoio. Era capaz de levar a plateia junto para casa, fazia o que bem entendia. Enquanto durava o show, o espaço era absolutamente comandado por ela.

Vinte anos depois, assisti novamente. Ela estava em cadeira de rodas, em decorrência de uma queda. Se apresentava sentada em um trono, aquele mesmo em que ela desfilou, em 2019, quando foi homenageada pela Mocidade Independente. Mais uma vez, deu-se o mesmo. Só que, ao contrário do show anterior, neste ela estava acompanhada por um DJ e fazia música eletrônica. Ao redor do palco, uma multidão de garotos a aplaudia freneticamente.

Elza Soares era capaz de cantar de tudo, mas fazia questão que tivesse, acima de todas as coisas, qualidade musical. Não há um só álbum dela que tenha bobagens, tentativas de conquistar mercado com gêneros que estão na moda. Nunca caiu nessa esparrela. E isso não custou barato. Após ser execrada por parte do país por abandonar o jogador Garrincha (quem tiver interesse no episódio procure o excelente livro “A Estrela Solitária”, de Ruy Castro), ela caiu no ostracismo.

Não se deixou abater. Ressurgiu pelas mãos do cantor e compositor Caetano Veloso, em uma participação magistral na canção “Língua”, do álbum “Velô”, de 1984. Quatro anos depois, fez o disco “Voltei”, e nunca mais parou.

Elza Soares gravou um DVD na segunda (17) e terça (18). Morreu na quinta-feira (20). Partiu em sua última viagem a maior cantora brasileira de todos os tempos.

Avatar de Julinho Bittencourt

Julinho Bittencourt* – Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo – o santo violeiro.

Publicado originalmente na Revista Fórum.

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