Para a minha avó – crônica de Gabriel Chalita

“Nenhuma mulher tem que sofrer os abusos das violências em nome de Deus. Em nome de Deus, se ama. Em nome de Deus, se vive a felicidade dos encontros bons. Em nome de Deus, se renasce.”

Por Gabriel Chalita

Sou uma mulher de fé. Frequento o culto e cumpro em mim, com decisão inegociável, o que cultuo.

Cultuo o amor a Deus, fonte de todas as vidas. As que nascem e as que precisam renascer. Cultuo o amor aos irmãos, aspergindo as minhas ações com a palavra respeito. Respeito o meu marido ou o que, um dia, foi o meu marido, o pai dos meus quatro filhos. Respeito, inclusive, as suas implicâncias com a minha felicidade. E, talvez, com a sua própria.

Sofri, desde os inícios, a traição. Com uma, com muitas. Eu chorava olhando nos seus olhos, e ele ria das minha inseguranças. Nada explicava, apenas aumentava a minha dor ridicularizando o que eu sentia. Das traições à dureza das palavras. Da dureza das palavras aos empurrões e outras agressões no meu corpo. Um dia, veio um tapa tão forte que avermelhou minha face despida de dignidade. Eu já não era eu. Mandava ele que eu fizesse regime. Falava das mudanças de meu corpo. Sou uma mulher de quarenta, mãe de quatro filhos. Meu corpo não é o mesmo de quando ele me conheceu, naturalmente.

Um dia, em um almoço de encerramento de ano, em que ele iria, conheci Orlando. Separado há muito, sentou onde sentaria meu marido. Não foi ele por ter dormido em outra cama que não a nossa e por ter esticado o prazer por parte do dia. Orlando conversou sobre os filhos, sobre o dia ensolarado, sobre canções de amor, sobre uma luz que emanava dos meus olhos tristes. Falei nada da dor. Disse, também, dos filhos. Disse, também, do cheiro novo daquele fim de ano.

Próximo à mesa, havia um arranjo de rosas que me ensinava alguma coisa. Aquela beleza colhida por alguém. Agradeci a Deus pelos meus sentimentos e logo pedi perdão pelos mesmos sentimentos. Orlando já florescia em mim, depois do primeiro alimentar.

Os dias se passaram e começamos a nos encontrar. E, na Igreja, eu dizia que era um erro encerrar minha encerrada história. Que eu tinha que aguentar meu marido. E dizia sem saber o que dizia em uma confusão de verdades plantadas em mim. Foi quando fui ter com minha avó, religiosa como eu, mulher como eu, experimentadora de sofrimentos como eu.

Minha avó teve 12 filhos. Minha avó teve sonhos. Minha avó sacrificou felicidades e doeu doída um marido incompreendido de gentilezas. Entre choros, falei de Orlando. Sabia que ela diria que eu desistisse. Sabia nada. Ela trouxe as mãos embelezadas pelas rugas dos tempos, enraizadas nas terras em que tanto semeou, e me tocou nas duas faces. Disse o meu nome e a senha da minha liberdade. “Vá viver esse amor, Helena. Eu me fiz escrava para ter netas livres. Eu aceitei o açoite das ausências para que os meus frutos pudessem florescer felicidades”.

Eu ainda argumentei sobre a família. Sobre a indissolubilidade do casamento. Sobre a aceitação. Ela, mais religiosa e devota que eu, religou a minha compreensão do Criador e das criaturas. Nenhuma mulher tem que sofrer os abusos das violências em nome de Deus. Em nome de Deus, se ama. Em nome de Deus, se vive a felicidade dos encontros bons. Em nome de Deus, se renasce.

E foi assim que fechei a porta da dor e comecei a caminhar com Orlando. O pai dos meus filhos continuou pai dos meus filhos. No início da notícia, me ameaçou. Depois, aceitou. Mantivemos uma distância correta e prosseguimos.

Orlando é especialista em plantio de elegâncias, temos nossa música, temos símbolos da nossa história, temos desejos, nada preguiçosos, de nos surpreender. Meus filhos o têm como um pai. Os anos foram confirmando a sabedoria de minha avó.

Amanhã, faremos doze anos de casados. Resolvi escrever este testamento para minha avó. Seus tantos netos puderam estudar. Alguns de seus filhos, também. A família foi ocupando os espaços sonhados por ela. Meu avô se perdeu muitas vezes e, hoje, prossegue doente e silencioso. Ela, não. Ela é escrevedora de palavras fortes, é pronunciadora de uma fé que resgata a razão do nosso existir. Em sua oração, transbordam responsabilidade e amor.
Quantas vezes a surpreendi na plantação conversando com Deus. Uma conversa linda, elevadora de sentimentos, promissora de paz.

Amanhã, direi à minha avó o renascimento arquitetado por ela. Sou uma parte de sua construção, de sua pintura bonita, de sua composição harmoniosa. Sou Helena, neta de Dona Ana. De uma mulher entre tantas que aprenderam com a dor a alforriar a dor dos outros, a limpar a culpa inventada pelos outros, a nos ensinar que os outros só têm o direito de nos enlaçar nos laços do amor.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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