O maior enfrentamento público neste ano de 2022 pode ser o combate à mentira

“Por isso, o problema vai além dos factoides de mídia, chegando à mentira sistemática como crise de sociedade: de natureza moral, por ameaçar o consenso civilizado sobre a verdade; republicana, por colidir com o imperativo de transparência, inerente à democracia real.”

A REPÚBLICA DE PINÓQUIO

Por Muniz Sodré

É provável que o maior enfrentamento público neste ano de 2022 seja o combate à mentira. Fake news proliferam, mas já não se trata apenas de “notícias”.

Há algo maior, que Manoel Maria Du Bocage, um dos maiores poetas líricos portugueses do século 18, passando algum tempo em Goa, atribuiu a uma distorção coletiva de caráter.

De dentro das intrigas locais, ele escreveu numa carta: “Gente ruim, essa de Goa. Chamaram-me de puto e mo provaram”. Fica evidente que o poeta queria rebater uma difamação.

Mas o ambiente famosamente mesquinho daquele enclave luso ajustava-se a uma das tiradas irônicas de Millôr Fernandes: “Jamais diga uma mentira que não possa provar”. 

Em termos lógicos, mentira é afirmação ou negação de um fato que confunde deliberadamente o falso com o verdadeiro. Não é o mesmo que erro, pois este tem uma relação com a verdade, enquanto a mentira caminha só, seduzida por si mesma.

Uma ilustração popular é dada por Pinóquio, o mentiroso boneco de madeira imaginado pelo italiano Carlo Collodi no século 19.

É uma história ao mesmo tempo infantil e adulta. Aliás, hoje tão relevante que sugere a hipótese de um “princípio de Pinóquio”, tanto na inverdade sistemática das redes como na vida ao redor.

O fenômeno desdobra-se entre nós: com o Orçamento da União corrompido, o discurso público da anticorrupção torna-se automaticamente mentiroso; governo e parlamento articulam um inaudito “veto-de-mentira”; empresas de conteúdo audiovisual faturam apenas o falso; a desinformação caluniosa respalda o arbítrio policial contra instituições e pessoas.

A novidade nessas fraudes, que antes pareciam ao menos temer as aparências, é a sua ruindade acintosa, como no samba de Vanzolini: “Mente/ Ainda é uma saída / É uma hipótese de vida…”.
De fato, mente-se de portas abertas e janelas escancaradas, com “provas”, como na Goa depreciada pela sátira do poeta.

Só que a gravidade das distorções de agora tem de ser avaliada em termos político-sociais, pois atentam contra o pacto fiduciário que está na base de toda e qualquer organização civil.
É corrosiva de caráter a liquefação da confiança no que se diz em alta voz.

Por isso, o problema vai além dos factoides de mídia, chegando à mentira sistemática como crise de sociedade: de natureza moral, por ameaçar o consenso civilizado sobre a verdade; republicana, por colidir com o imperativo de transparência, inerente à democracia real.

O princípio de Pinóquio é ovo de serpente neofascista.

Muniz SodréSociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “A Sociedade Incivil” e “Pensar Nagô”.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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