Por que você precisa tanto de homem? As mulheres reproduzem e fortalecem a velhofobia que existe no Brasil

“Primeira aula de velhofobia: a repulsa pelo corpo feminino que envelhece é alimentada pelos especialistas e pela indústria da beleza e juventude.”

Mirian Goldenberg olhando por uma janela
Mirian Goldenberg – Wallace Cardia/Arquivo Pessoal

Por Mirian Goldenberg

Cinco cenas da vida real que poderiam estar na novela das nove, pois retratam as pressões e obstáculos externos e internos que as mulheres maduras enfrentam diariamente.

Cena 1 – A primeira vez em uma dermatologista

Fiz 40 anos e decidi ir pela primeira vez na vida a uma dermatologista para que ela me indicasse um filtro solar e um hidratante, produtos que nunca havia usado até então.

Observando atentamente o meu rosto, como um detetive que procura provas da minha decrepitude com lentes de aumento, ela disse em um tom acusatório:

“Por que você não faz uma correção nas pálpebras, elas estão muito caídas. Você vai ficar dez anos mais jovem”.

E continuou com um tom ainda mais cruel: “Por que você não faz preenchimento ao redor dos lábios? Você está com bigode chinês. Você vai ficar dez anos mais jovem”.

E a facada final: “Por que você não coloca botox na testa? Você está com muitas rugas de expressão. Você vai ficar dez anos mais jovem”.

Paguei a consulta e saí do consultório com uma profunda crise existencial. Em vez de ficar dez anos mais jovem, ganhei meio século de preocupações com marcas de envelhecimento que antes eram invisíveis para mim.

Primeira aula de velhofobia: a repulsa pelo corpo feminino que envelhece é alimentada pelos especialistas e pela indústria da beleza e juventude.

Cena 2 – Uma simples ida ao cinema

Sempre gostei de ir ao cinema sozinha, sentar na primeira fila e mergulhar por inteiro no filme. Quando estava com 45 anos, ouvi o comentário de duas mulheres, acompanhadas dos seus respectivos cônjuges: “Olha a Mirian Goldenberg. Ela tem dez livros publicados, mas não tem um marido ou namorado para vir ao cinema com ela. Coitada, estou com pena dela tão sozinha”.

Segunda aula de velhofobia: as mulheres não aceitam as escolhas de outras mulheres que não precisam exibir um homem como troféu, o que chamei de “capital marital”.

Cena 3 – Os conselhos da amiga de infância

Fiz 50 anos e uma amiga de infância me aconselhou: “Por que você não faz uma cirurgia plástica e coloca botox? Você quer mesmo ficar assim tão velha e feia? Você se aposentou da vida?”.

O curioso é que, ao não conseguir reconhecer a menina que um dia ela foi, passei a achar mais bonito ser uma velha acabada do que uma perua plastificada e paralisada. Olhar para o seu rosto tão mutilado e deformado me fez ter a certeza de que quero continuar sendo eu mesma, em todas as fases da minha vida.

Terceira aula de velhofobia: muitas mulheres amputam seu eu mais verdadeiro por terem pânico de envelhecer.

Cena 4 – As acusações da militante feminista 

Fiz 55 anos e fui ao lançamento de um livro com meu novo namorado. Uma conhecida militante feminista me olhou surpresa: “Mirian, você acabou de se separar. Por que você precisa tanto de homem?”. Levei um choque com a pergunta agressiva e respondi: “Eu não preciso de homem para nada, não preciso de ninguém para pagar minhas contas ou resolver meus problemas. Acho que é justamente porque eu não preciso de um homem que encontrei um companheiro que me faz feliz. Ele sabe que estou com ele não porque eu preciso, mas porque eu quero. É uma escolha livre, não uma necessidade ou imposição social”.

Quarta aula de velhofobia: algumas mulheres que se acham libertárias também são preconceituosas e querem aprisionar as escolhas femininas.

Cena 5 – O autorretrato da velhice

Em 2020, dei uma longa entrevista sobre velhofobia no Brasil. Não consegui ficar feliz com a excelente matéria, pois só consegui enxergar a minha foto em destaque: “Nossa, como eu estou velha. Que vergonha, todo mundo vai ver que envelheci vinte anos durante a pandemia“.

Eu que, desde março de 2015, brinco que tenho 93 anos pois passei a ter só amigos nonagenários, não enxerguei a beleza da minha própria velhice. Mesmo tendo aprendido que o importante não é a idade cronológica, mas a idade da alma, não consegui reconhecer que a minha alma não envelheceu, mas que ela floresceu com o tempo.

A aula mais importante: a velhofobia mais cruel está dentro de mim.

Mirian GoldenbergAntropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de “A Bela Velhice”.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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