Poça d’água – crônica de Gabriel Chalita

Poça d’água

Por Gabriel Chalita

Estava na calçada da casa verde que fica a duas quadras da casa em que vivo, quando um carro desajeitado me fez molhar o vestido mais bonito. Parei contrariada e perdi a alegria que me fazia caminhar ao casamento de Janice. O azul estava amargurado. Com as mãos, tentei tirar os excessos, mas haveriam de reparar no sujo que trazia.

O que faz uma poça d’água  em um lugar errado? O que faz um apressado que não vê a alegria na calçada? Estava perto de casa e poderia voltar e me atrasar. Ou poderia ir e entender que olhariam nada os sujos que tiravam a pureza do vestido que eu mesma fiz. 

Sou costureira e, vez ou outra, bordo naturezas nos vestidos que faço. No azul do que visto, vejo o mar. Nem sempre digo o que vejo, quando faço. A arte que brota da minha imaginação é livre e não precisa ser a mesma que encontra a imaginação de quem vê. 

Fiz gotículas de chuva em festa de São João para Adélia. Em um tom de fogueira. Um amarelado fogo e umas águas apagando o que poderia queimar. Ela gostou e comentou comigo os ouros que ela enxergou, quando viu o vestido.

Fiz umas respirações de peixes para Anita em um tom que imagino o Rio Amazonas. Um verde de quantidade forte. Ela disse nada, só sorriu satisfeita. 

Janice vai se casar e não fui eu que fiz o vestido. Poderia ter sido, mas Francisco pediu que ela usasse o da mãe, falecida há não muito. Francisco é um homem das paciências.
 
Janice foi casada com Antenor, durante quase quinze anos. Antes, foi namorada de Francisco. Namoro de jeito diferente. Eram crianças crescidas, apenas. Sem conhecimento das partes que conferem prazer no corpo. Um dia se cansaram e caminharam calçadas diferentes. Foi quando Janice viu Antenor e se casou e fez três filhas.

Francisco prosseguiu amigo. Sem desrespeito a não ser nos pensamentos.  Como trabalha de enfermeiro, assistiu aos três nascimentos. Cuidou de Janice. Cumprimentou Antenor. E evitou olhares que explicassem o que sentia. Janice nunca deixou de gostar de Francisco. Eu sei, porque, enquanto deslizo os tecidos na máquina de casa, recebo amigas para confidências.

Antenor era tosco, falava desrespeitos, exibia seduções e entretinha de prazer a si mesmo. Morreu Antenor em acidente da vida. Francisco amparou Janice e as filhas. Demoraram a andar novamente pela mesma calçada. Acharam que era preciso algum tempo para o desfazimento da vida anterior. 

Há vidas que nascem e vidas que morrem em uma mesma vida. Os vestidos já foram tecidos e podem ser outra coisa depois.  Meu vestido sujo da pressa do motorista vai me acompanhar. Não vou dar passos para trás. Quero chegar no início. Não quero imaginar que seja eu a chamar, para mim, as atenções. Há mais gente no casamento. Há mais gente na vida. Já conversei com a timidez que me atrapalhava e já expliquei que não sou o umbigo dos acontecimentos que envergonhava de ir. O tempo traz essas compreensões.

Não estou mais suja do que limpa. E, enquanto caminho, alguns restos da poça d’água se ajeitam e até parecem enfeitar. O mar que via agora virou azul das nascentes com uns incômodos que surgem, quando tudo vira rio. A água é a mesma, o vestido é o mesmo, eu sou a mesma, em uma vida que é tantas vidas em uma só. 

Janice viveu anos arrependida por ter deixado a felicidade na calçada do outro lado da rua. Feliz dia em que atravessou. Feliz dia em que casou o desejo com o pensamento.

Eu aguardo o Felipe, irmão de Francisco. Separado há pouco. Disse ele à Janice que eu era certinha demais, “a costureira parece saída de um convento”. Janice riu, enquanto me contou. Às vezes se é certinha por falta de oportunidade, foi o que pensei, desejando.  Quem sabe ele veja o sujo do vestido e goste? Quem sabe o apressado do motorista e o desajeitado do construtor que fez a rua e deixou irregularidades que permitiram a poça d’água não me ajudem a andar na mesma calçada que Felipe?

Mais de uma vida em uma só. Será que Felipe vai se importar com o barulho da máquina que faz nascer novos adornos para a festa da vida? Deixa eu deixar de lado esses pensamentos e agradecer a festa de encontro de dois amigos que tanto amo. Viver a alegria do outro é viver a alegria. A da gente, na caminhada a gente encontra.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

Traço de União é um espaço para aqueles que defendem a democracia, a ciência e a preservação do Planeta Terra - azul e redonda.
Esse post foi publicado em crônica. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s