“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa.”

“Sim, o “doodles de 19/09/2021” assim se referiu ao mestre: “O Doodle de hoje comemora o centésimo aniversário do filósofo, educador e autor brasileiro Paulo Freire, reconhecido como um dos mais influentes pensadores educacionais do século XX”.”

Ponto de Vista: Doodles

Por Inaldo da Paixão Santos Araújo*

Segundo o dicionário Collins online, “doodle é um padrão ou imagem que você desenha quando está entediado ou pensando em outra coisa”. Até onde pude pesquisar, não existe uma tradução literal para o termo. Em português, as palavras que mais se aproximariam seriam: sarrabisco, gatafunho ou rabisco. Portanto, doodles são um “tipo de esboço ou desenho realizado ao acaso, quando uma pessoa está distraída ou ocupada. São desenhos simples que podem ter significado concreto de representação ou simplesmente representar formas abstratas”.

Como o Google a cada dia avança mais, os doodles hoje são associados às “versões divertidas, surpreendentes e, muitas vezes, espontâneas do seu logotipo para comemorar feriados, aniversários e a vida de artistas famosos, pioneiros e cientistas”.

Originados de uma brincadeira dos fundadores do Google, Larry e Sergey, em 1998, os doodles atualmente são criados por uma equipe de ilustradores (chamados de doodlers). Até o presente momento já foram elaboradas mais de 4.000 homenagens a feriados conhecidos, a eventos variados e a datas comemorativas. Entre essas datas, a relativa ao centenário de nascimento do educador Paulo Freire.

Sim, o “doodles de 19/09/2021” assim se referiu ao mestre: “O Doodle de hoje comemora o centésimo aniversário do filósofo, educador e autor brasileiro Paulo Freire, reconhecido como um dos mais influentes pensadores educacionais do século XX”.

Enquanto o mundo rendia homenagens a um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da consciência crítica, no Brasil, nestes tempos tão trevosos e retrógrados, tornou-se necessária a moderação do Judiciário. Com efeito, pasmem, a Justiça Federal teve que deferir uma liminar proibindo o governo federal (incluindo servidores públicos, autoridades e integrantes do atual governo), sob pena de multa de R$ 50 mil, de “praticar qualquer ato institucional atentatório à dignidade intelectual” de Paulo Freire.

Estranhei o teor da decisão, mas, para o meu desencanto, ao clicar no doodle freiriano, na data do seu centenário, a primeira matéria jornalística que surgiu foi uma reportagem do jornal Correio Braziliense. Nessa matéria, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho Zero Três do presidente da República, critica a decisão judicial que protege a memória do patrono da educação brasileira, Paulo Freire.

Assim se referiu o Zero Três: “Educação do país de péssima qualidade e não se pode nem criticar o patrono desta bagunça? Isso não é justiça, é militância doentia”. Além disso, completou, “Nunca foi tão difícil fazer o certo e consertar o Brasil. Mas nós somos chatos e estamos certos, então vamos adiante”.

Essa declaração mais do que absurda soa até normal para o filho de quem já chamou Paulo Freire de “energúmeno” e segue um “guru”, que, certa feita, afirmou que o mestre “nada fez para o país”.

Fiquei entediado, mas infelizmente não tenho um doodlepara me manifestar. Como para cada ponto há sempre um contraponto, pensei até em escrever sobre tais comentários depreciativos acerca do Copérnico da Educação, na forma que me ensinou o espírita José Medrado.

Como sobre Paulo Freire já escrevi em duas oportunidades (“Paulo Freire, com aleluia”, publicado no jornal A Tarde, de 7/03/2020 e “Paulo Freire e a educação que liberta”, publicado no jornal Tribuna da Bahia, de 20/09/2021) e já doei exatos 33 livros de sua autoria ou sobre ele à biblioteca do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, optei por trazer fragmentos do memorável artigo “Paulo Freire, 100: o legado de um educador popular”, da autoria do frade dominicano, jornalista graduado e escritor Carlos Alberto Libânio Christo, o nosso Frei Betto, dado a público pelo site UOL, em 19/09/2021 (Disponível em https:// https://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2021/09/19/paulo-freire-100-o-legado-de-um-educador-popular.htm).

Como se precisasse justificar seu artigo, disse Frei Betto: “Diante da emergência de tantos governos autoritários e da profusão de mensagens antidemocráticas, racistas, homofóbicas, machistas e negacionistas nas redes sociais digitais, me parece de suma importância revisitar Paulo Freire nesta data do centenário de seu nascimento”.

Sobre a obra de Paulo Freire, Frei Betto revela que ela “nos ensina que não há mobilização sem prévia conscientização. É preciso que as pessoas tenham um ´varal` onde pendurar os conceitos políticos e as chaves de análise da realidade. O ´varal` é a percepção do tempo como história.”

Como se parodiando um texto clássico na educação infantil “Ivo viu a uva”, sempre destacado nos vetustos manuais de alfabetização, Frei Betto rememora que o professor Paulo Freire, “com o seu método de alfabetizar conscientizando, fez adultos e crianças, no Brasil e em Guiné-Bissau, na Índia, na Nicarágua e em tantos outros lugares, descobrirem que Ivo não viu apenas com os olhos. Viu também com a mente, e se perguntou se uva é natureza ou cultura”.

E, de forma magistral, contextualiza a nossa realidade ao afirmar que: “O refluxo das forças progressistas na América Latina nos últimos anos, e o despontar de figuras neofascistas, como Bolsonaro no Brasil, nos obrigam a reconhecer que há décadas abandonamos o trabalho de base de organização e mobilização populares. Esse vazio junto às populações da periferia, das favelas, das zonas rurais pobres, vem sendo ocupado pelo fundamentalismo religioso, pelo narcotráfico e milicianos”.

E se tudo isso não for o bastante quando se trata de Paulo Freire, patrono da educação brasileira e criador do método de alfabetização crítica de adultos, o que eu mais poderia dizer se há ainda aqueles que optam em ficar no “zero à esquerda”, somente para usar uma linguagem bem educacional para quem nada representa?

Sei que não o fazes por ignorância, pois como vaticinou o professor Paulo Freire: “Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre”.

Por fim, somente para não dizer que eu me esqueci dos doodles, aproveito para lembrar ao Google que o nosso Frei Betto, em 25/08/2024, completará 80 anos de vida. Logo, não seria essa uma boa data para uma justa homenagem para também um dos grandes defensores do poder popular?

Inaldo da Paixão Santos Araújo* em Contabilidade. Conselheiro-corregedor do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, professor, escritor.

Publicado originalmente no jornal Tribuna da Bahia

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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