A vida do outro: sou vendedora de coco e sou visitante cuidadosa da vida do outro. Por aqui, passam histórias que surpreendem pelo incomum…

A vida do outro

Por Gabriel Chalita

Sou vendedora de coco e sou visitante cuidadosa da vida do outro. Por aqui, passam histórias que surpreendem pelo incomum.

Comumente, desperto na solidão de uma cama, há muito desacompanhada.  Disso, falo outro dia. Ronaldo acrescentava nada em mim. Fútil nas ideias e tosco nos afetos. Ter companhia por ter, prefiro o aprendizado de conhecer a mim mesma.

Cedo abro minha barraca e preparo os cocos. Que delicadeza da natureza fazer brotar água para brotar alívio nas pessoas! Na dureza de um coco, a suavidade do seu interior. 

Aos poucos, passam por mim pessoas que trazem um pouco do que são. Há os que se aconchegam gentis e demonstram interesse pelo que faço. Há os que falam nada, entorpecidos por aparelhos grudados nos ouvidos a despencar todo tipo de barulho.

Há uma Dona Amélia, que desce, vagarosamente, do seu prédio e vem ver o sol da manhã se alimentando do prazer da água. Conversa leve a dela. Aposentada e com os filhos já crescidos, gasta a vida nos livros e em outros prazeres que exigem mais do intelecto que do físico. Fala ela das peças de teatro, de algum filme, de algum conhecer novo. Em alguns fins de semana, os netos vêm junto. E se sentam com ela para saborear o convívio. Com delicadeza, pede que deixem os olhos nos olhos das pessoas que conversam e não nas telas. E eles aceitam.

Juliana, uma das netas, comentava sobre um fim de relacionamento entre dois artistas. Quis saber a avó se eram pessoas do seu convívio. A neta sorriu, clarificando que não. Felipe, o neto mais velho, falou de uma dieta que aprendeu com uma influencer das redes. A avó perguntou se era médica ou nutricionista. Ele disse não saber. Clara, a outra neta, explicou dos costumes da que dá as dicas, das suas viagens, das lojas onde compra suas roupas, dos restaurantes que frequenta. 

A avó não é das que interrompe narrativas. Ouviu até o ponto final. E, depois, falou.
Falou sobre o estranho mundo em que é mais comum saber da vida do outro do que da própria vida. Contou uma história bonita nascida nas mitologias. Eu me entretive tanto que esqueci os outros fregueses. Adormeci as preocupações ouvindo a velha senhora contar a história de Pandora e de sua excessiva curiosidade. Ao abrir a caixa, permitiu que os males fossem ocupando espaços no mundo.  João, que é corredor e que descansa sempre dos seus exercícios na minha barraca, também ficou ouvindo. E um sol bonito atravessava  uma velha figueira que nos cedia sombra e iluminava os brancos cabelos de Dona Amélia.

Fui atender um jovem com som alto e inquietude nos gestos e perdi um pedaço da história. Entendi que, no final da caixa, havia restado a esperança. 

Os netos estavam sentados no chão, ao lado da cadeira da avó. Mariana, a neta mais nova, descansava a cabeça, enquanto tomava sem pressa a água de coco. Um homem caminhava brigando com alguém ao celular. Um outro trombou por ficar olhando na tela. Bateu em uma árvore e riu. E prosseguiu sem notar as flores que já desabrochavam primaveras.

Cecília é outra freguesa que gosta das conversas, mas que não se incomoda em reclamar. Na minha barraca, conheceu Dona Amélia e se aninha por perto toda vez que ela chega. 

O pôr do sol de onde fico é incansavelmente lindo. Só depois que ele se vai é que me vou. No ônibus de volta para casa, tenho o costume de olhar para as pessoas e imaginar a vida delas. Das razões para a tristeza ou para a felicidade. Às vezes, rio sozinha das minhas conclusões. Antes, era mais fácil conversar. Hoje, estão todos vivendo mundos que criaram. Não sou contra a tecnologia. Nem poderia ser, entendo pouco. Sou contra os desperdícios.

Enquanto o ônibus cruza a cidade, vejo praças e árvores, vejo gente, vejo vida. E, quando desço, caminho observando o mundo de pedras e de flores que se apresenta a quem está disposto. Vez em quando, tenho disposição para ir ao bar com cantoria do Zé Raimundo, que fica a duas quadras de casa. E na música enxergo a vida que dança quando entendemos.

Sou vendedora de coco e sei que o que alimenta é o que está dentro. O que há fora, eu apenas visito, com cuidado.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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