Ser a melhor ou ser a segunda: uma sociedade onde todos queiram ser os melhores será feita à base de solitários e solitárias

“Ser o melhor é sempre se separar dos outros, é uma corrida para a solidão e o isolamento. Porque nunca há dois melhores, de modo que essa melhor estará sozinha na sua imaginação e padecerá essa solidão no coração.”

Uma mulher toca violino num posto de vacinação de Los Angeles.DPA VÍA EUROPA PRESS

Por NURIA LABARI*

“Minha filha quer ser segunda violinista. Não a primeira, nem solista; o que ela quer é tocar tranquila, em segundo plano, porque isso a deixa feliz.” Assim começava uma das cartas à diretora publicada nesta semana no jornal, sob o título A felicidade do segundo violino. A carta correu como pólvora no Twitter, dando origem a milhares de retuítes em diferentes postagens, bem como a um interessante debate não só sobre o papel de cada instrumento na orquestra, mas também sobre a diferença entre os primeiros e os segundos, entre os melhores e todos os outros.

Vivemos num mundo onde competir para ser a melhor é uma máxima que nos permeia, mas, ao mesmo tempo, cada vez mais vozes sugerem que essa forma de entender a excelência nos torna infelizes e empobrece nossa sociedade. Por isso o desejo deste jovem violinista, aliado ao excelente título da carta, A felicidade do segundo violino, funcionou como uma libertação para muitos. “A sociedade assume que um segundo violinista é um solista frustrado”, resumiu @jl_sastre em uma série de posts sobre o assunto. No entanto, a satisfação dessa simbólica violinista sugere que talvez os frustrados sejam os primeiros.

Ser o melhor é sempre se separar dos outros, é uma corrida para a solidão e o isolamento. Porque nunca há dois melhores, de modo que essa melhor estará sozinha na sua imaginação e padecerá essa solidão no coração. Uso o feminino aqui em homenagem à jovem que abriu o debate, mas evidentemente também se aplica ao masculino. Uma sociedade onde todos querem ser os melhores será uma sociedade feita à base de solitários e solitárias.

Quem estiver decidida a ser a melhor lerá a sociedade em termos de competição e, portanto, em termos de obstáculos e problemas, de modo que “o melhor” é uma estrutura de conflagração civil problemática para criar grupos e solidariedade. O exemplo do violino é realmente bonito nesse sentido, porque ilumina o fato de que quem deseja de coração fazer parte de uma orquestra, de algo maior que si mesma, não aspira a ser “a melhor de”, e sim a “fazer parte de”. E é isso que a jovem chamou de “segundo violino”. Quem dera todos os solistas tivessem alcançado sua posição na orquestra desejando algum dia, mais do que qualquer outra coisa, fazer parte dela em vez de ser a melhor parte dela.

Porque, por outro lado, não há como saber quem é a melhor ou o melhor senão pelos sinais atribuídos a eles pelo poder, pelo dinheiro ou pela política, que costumam se traduzir sempre em sinais materiais. “Todos são necessários, solistas e segundos, mas nem todos têm o mesmo valor, porque nem todos podem ser substituídos com a mesma facilidade”, protesta @yanosvale7 dentro do fio. E acrescenta: “Essa fobia por pessoas brilhantes que se esforçam acima da média parece complexa”. Porém, é evidente que a jovem violinista não escreve por falta de talento ou desmerecendo a ideia de ser a melhor no sentido ético, intelectual e espiritual que também poderia impulsionar o nobre desejo de “ser a melhor”. A carta e os aplausos que ela motivou, os milhares de tuítes, retuítes e comentários protestam contra a ideia de ser a melhor dentro das convenções aceitas na nossa sociedade: produção e trabalho. E por aí a melhor não é nada senão a formiga-rainha, serva do formigueiro. Que alegria saber que, no fervilhar humano, palpita a resistência.

Nuria Labari

NURIA LABARI*

Publicado originalmente no portal El PAÍS.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União

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