Euforia toma conta das criptomoedas – tempos de irracionalidade

“O fato é que estamos vivendo tempos de irracionalidade. Será tudo mais uma crise das tulipas? Ou o prenúncio de que uma mudança mais profunda, mais caótica, está em curso?”

Representações físicas da criptomoeda Bitcoin expostas em casa de câmbio em Istanbul, na Turquia – Ozan Kose – 20.out.2021/AFP

Por Ronaldo Lemos

Todo carnaval tem seu fim, como cantavam os Los Hermanos. No ramo das criptomoedas esse fim ainda não chegou. Na semana passada mais um fenômeno aconteceu. A criptomoeda chamada Shiba Inu teve uma valorização impressionante, acumulando mais de 700% em 30 dias.

A Shiba Inu faz parte do segmento das “memecoins”, fusão entre as moedas digitais e os memes da internet. Tanto é que seu nome e símbolo fazem referência a uma simpática raça de cachorro japonês muito popular na internet.

A moeda foi criada em agosto de 2020 por um anônimo que se autodenomina Ryoshi. O objetivo do criador foi competir com outra memecoin chamada Dogecoin, que também usa o mesmo cachorro de mascote.

Uma das características das memecoins é que elas não têm praticamente nenhuma aplicação prática além da especulação financeira, capaz de enriquecer da noite para o dia quem acreditou nelas no momento certo. E ponha enriquecer nisso.

Por exemplo, um investidor comprou US$ 8.000 de Shiba Inu em agosto de 2020. No dia 27 de outubro de 2021 esse valor correspondia a US$ 5,7 bilhões. E não é só. O valor total de mercado de criptomoeda ultrapassou na semana passada o valor em empresas como General Mills, 7-Eleven, Delta Airlines, Kellogs e o valor da própria bolsa Nasdaq.

O influxo de dinheiro para a Shiba Inu foi tão considerável que no dia da sua maior ascensão a maioria das outras criptomoedas perderam valor. Mais do que isso, a moeda passou a ocupar o nono posto das maiores criptomoedas do planeta.

O caso despertou um frenesi com relação a outras memecoins como a Floki Inu (que também usa um cachorro da mesma raça como mascote), criada por membros da “comunidade” das memecoins.

Há algumas observações que podem ser feitas sobre tudo isso. A primeira é que vale nos lembrarmos todos os dias da frase do escritor Doc Searls que diz que “mercados são conversas”. Mais do que nunca existe uma aproximação entre o fluxo imprevisível da informação na internet e a orientação dos mercados.

O caso Gamestop foi uma vitrine disso. O caso das memecoins está sendo outra. A frase “follow the money” em breve vai precisar ser substituída por “follow the meme”, que é o que está acontecendo hoje.

Outra questão é regulatória. Haverá algum tipo de intervenção nesses movimentos do mercado? Essa regulação será eficaz?

O caso mais conhecido de regulação drástica vem, de novo, da China. O país simplesmente proibiu qualquer tipo de uso ou atividade relacionada a criptomoedas, com exceção da sua própria, o e-Renminbi.

A alegação do país é que os mercados financeiros precisam estar conectados à economia real. O temor é que com taxas de retorno sobre investimento declinantes, investidores começassem a migrar seus recursos para as criptomoedas, que de fato têm superado os retornos de outros ativos recentemente.

O fato é que estamos vivendo tempos de irracionalidade. Será tudo mais uma crise das tulipas? Ou o prenúncio de que uma mudança mais profunda, mais caótica, está em curso?

Ronaldo LemosAdvogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União

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