Autor de ‘Povo de Deus’, Juliano Spyer diz que compreensão dos valores familiares pode ampliar diálogo da esquerda com pentecostais

Bolsonaro envergonha evangélico, mas o atrai pela defesa da família, diz antropólogo

Publico abaixo a entrevista de Juliano Spyer concedida ao jornalista Márvio dos Anjos para o jornal Folha de São Paulo. Vale a pena ler!

O antropólogo Juliano Spyer – Zanone Fraissat/Folhapress

Quando lançou “Povo de Deus”, em outubro de 2020, Juliano Spyer, 50, não imaginava que tantos políticos de esquerda fossem abraçar o livro –que reúne pesquisas e conclusões de diversos pesquisadores sobre os evangélicos no Brasil.

A obra, que já contava com entusiasmo de deputados como Tabata Amaral (PSB-SP) —colunista da Folha— e Marcelo Freixo (PSB-RJ), teve impulso renovado em maio, ao ser recomendada por Lula numa reunião do PT-RJ, ganhando assim ares de “Bíblia” sobre esse terço do eleitorado.

O rótulo incomoda o antropólogo, que conversou com a Folha por videochamada.

Seu livro se tornou muito influente na esquerda, que demonstra dificuldade de abordar o público evangélico. Era planejado? É uma surpresa. Me formei no departamento de história da USP, vivi ali um policiamento ideológico e, talvez por conta disso, eu tenha feito o livro.

A intenção nunca foi fazer um manual, porque um manual instrumentaliza o conhecimento, enquanto meu livro diz outra coisa: “Presta atenção, você tem cometido alguns erros, e aqui tem algumas reflexões de antropólogos e sociólogos sobre isso”.

Eu queria fazer, sim, uma provocação, e as pessoas acolheram bem, em parte porque o argumento é muito sólido: o Brasil vai deixar de ter maioria católica para se tornar protestante em exatamente dez anos, num trânsito religioso que não tem precedentes no mundo.

Em 2018, os evangélicos deram dois terços de seus votos a Bolsonaro, e muitas análises afirmam que isso decidiu a eleição. Então, mais do que abraçar esse público, tem a questão prática de entender e se envolver com esse assunto, para sobreviver neste Brasil novo —e não apenas na política.

Por que é tão difícil para a esquerda lidar com essa enorme parcela da população pobre brasileira? [A cientista política americana] Amy Erica Smith mostra que há um descompasso recente entre as lideranças políticas do país e as visões do povo brasileiro –não necessariamente do evangélico– e que isso tem muito a ver com a família.

Para dar um exemplo: de todos os personagens da cosmovisão popular, o único que resistia na periferia de Salvador em que morei e pesquisei, de 2013 e 2014, era o lobisomem. E não era o lobisomem europeu: a questão central era o cara se bestializar a ponto de bater no pai, na mãe, na avó.

É uma grande ofensa, e esse tipo de valor familiar está muito associado à imensa quantidade de brasileiros de origem rural que transformaram o Brasil de um país 70% rural para 80% urbano, ao migrarem em massa para as cidades no século 20. A maior parte das pessoas vem desse fenômeno e traz consigo uma visão familiar com valores muito tradicionais de respeito e de obediência.

E isso se choca diretamente com pautas como a temática LGBTQIA+, a legalização do aborto e das drogas, todas caras à esquerda atual. Como sair desse dilema? Primeiro, quero dizer que me coloco do lado das pessoas que defendem essas pautas. Todos esses são temas importantes para mim. Agora, partindo da minha experiência etnográfica, se eu pensar no mundo evangélico como uma plateia de mil pessoas e perguntar “quem aqui é a favor do aborto?”, três pessoas levantarão a mão. Se eu perguntar quem é a favor das drogas, umas quatro ou cinco. Mas se eu perguntar “quem é a favor de uma escola de melhor qualidade?”, deverei ter 60%. “Quem é a favor da proteção das florestas?”, umas 30% ou 40%.

Isso necessariamente muda o eixo do debate visível de muitas esquerdas, não? Existe mais campo para diálogo do que vem sendo explorado, e há essa vasta literatura sobre camadas populares que explica isso e que eu cito no livro. Porque, no fim, isso não tem a ver com evangélico. Isso tem a ver com o preconceito de classe que as camadas médias e altas têm em relação ao pobre. Para elas, quanto mais perto o pobre está, mais problema ele é, e isso influencia como a política lida com ele. Só que, quando esse pobre se converte ao pentecostalismo, a percepção dele em relação à sociedade muda.

Como assim? Na conversão, ele ganha a oportunidade de começar do zero: ele pode ser quem ele quiser e entende que não é melhor nem pior do que ninguém. Não quer ser comandado nem aceita ser paternalizado.

Há muitos anos, presenciei uma cena entre uma grande autoridade política de esquerda e uma faxineira evangélica, logo que ele assumiu o governo e se mudou para a residência oficial. Tocou o telefone, a faxineira atendeu, e ele falou: “Diz que eu não estou”. Ela respondeu que não ia responder aquilo porque era mentira e ela não podia mentir. No dia seguinte, ela foi demitida.

É esse choque que precisa ser atenuado. Essa arquitetura da casa-grande e da senzala se impregnou muito via catolicismo e faz sentido até para ateus. É quando o ministro Paulo Guedes fala, de um ponto de vista não católico: “Quem são essas empregadas domésticas que estão viajando para a Disney?“.

O problema é que a esquerda também está perguntando: “Quem são esses evangélicos para achar que podem participar de política?”. E geralmente a política na esquerda se dá como uma vanguarda intelectualizada guiando as pessoas.

Ou seja, no fim das contas, essa inabilidade se resume a uma grave incompreensão das camadas mais pobres? E aí a gente retorna ao problema da bolha. A depender da bolha, dá impressão de que todo mundo está falando sobre um assunto, mas é só a impressão de um Brasil ao qual me refiro como “Bélgica”, enquanto o resto é o “Haiti”. O “Haiti” tem muito mais presença na “Bélgica” do que o contrário, ele entra nas casas da “Bélgica” diariamente, mas a “Bélgica” não pauta tanto o “Haiti”.

E aí os evangélicos ganham um peso: eles aumentam o contato quase inexistente entre os ricos e pobres do Brasil –que vivem, segundo a etnógrafa Claudia Fonseca no seu livro “Família, Fofoca e Honra” [2001], num regime de separação semelhante ao apartheid sul-africano.

Como eles aumentam esse contato? O cristianismo evangélico é uma religiosidade que leva pessoas à classe média. Veja bem: não conduz ao enriquecimento, mas leva, primeiro, a uma disciplina geral: parar de frequentar o bar, usar drogas, ter relações fora da família. E a vida melhora.

Se você vive no mundo tenso da periferia, a vida evangélica protege o indivíduo e é uma rede de contatos que você precisa. Se alguém levar um tiro, ambulância alguma vai chegar lá, então você precisa ter ou conhecer alguém que tenha um carro. Quando o indivíduo é reconhecido como evangélico, a violência policial também se desvia dele de certa forma.

Em segundo lugar, essa disciplina incentiva um ganho de educação. Para as camadas mais populares, a escola é um tema muito complicado. Há muitas questões de hierarquia familiar, de como as pessoas aprendem a trabalhar, então a escola não é esse lugar que a família popular aposta tanto.

Mas o evangélico aposta: saber ler quando o pastor manda abrir a Bíblia é uma forma de distinção de uma dignidade pessoal. E isso se desdobra, porque abre possibilidades de trabalhos, bancarização, interesse por diplomas, treinamentos e usos de tecnologia que têm consequências.

Em 2017, uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, identificava no morador da periferia de São Paulo alguém que vê no Estado um agente que causa obstáculos. Você concorda? Concordo em termos. O que ouvi muito foi o discurso de que o político é mentiroso. Mas há exceções: uma senhora analfabeta muito pobre certa vez me disse: “Ah, mas teve fulano de tal que foi quem colocou luz aqui na rua: nele eu voto”. A gente geralmente fala do brasileiro pobre como manipulado e alienado, mas a minha impressão é que o brasileiro pobre é quem vota melhor, porque ele vota no que é mais real para ele.

E o Bolsonaro, por que ainda tem apelo entre evangélicos? É muito menos religião do que outras coisas, e isso se fala pouco. Bolsonaro envergonha muito os e da vangélicos, por ser católico, agressivo, falar de armas. O que mobiliza o evangélico das camadas populares a dar o voto ao Bolsonaro é que ele é o único dos candidatos que defende, de maneira clara, a família tradicional. Então tem margem aí para essa população se ver representada por outros que tenham mais compatibilidade com esses valores.

Como os evangélicos digerem o debate sobre armas? Não percebo isso como algo que ecoe bem em nenhuma igreja evangélica. Falar de armas é um pavor para a mulher evangélica, que já vive em lugares violentos. Para o crente que se assume bolsonarista, é embaraçoso, porque ele tem de defendê-lo em igrejas que estão nos bairros mais pobres e violentos das cidades brasileiras.

A análise política de certa forma estereotipa o evangélico pentecostal. Como você vê a relação do bolsonarismo com os outros cristianismos? É equivocada e injusta essa imagem mental de que apenas o evangélico pentecostal se associou ao bolsonarismo. Só para falar da Assembleia de Deus, ali são várias igrejas autônomas, em que muitos pastores e fiéis não se alinham com os líderes políticos mais conhecidos.

Dentro da literatura, fala-se mais num cristianismo conservador: os católicos, os espíritas e os protestantes históricos, que são os evangélicos que tiveram mais representantes no primeiro escalão do governo que os pentecostais.

Você relata que há um tipo de emancipação feminina diferente dentro do pentecostalismo. Como isso ocorre? É uma perspectiva bem diferente da mulher de classe média e alta, para quem o empoderamento significa ser independente e romper vínculos. No contexto popular, como ouvi de uma mulher evangélica, “isso é fácil quando você tem trabalho, dinheiro no banco e família que ajuda”.

Então o que a literatura diz é que o empoderamento da mulher evangélica se dá pela redução do poder do homem, que deixa de viver uma vida mais “masculina”, no sentido mais conservador do termo, e passa a ter sua rede de amigos dentro da igreja.

Aí a mulher é incentivada pela igreja a investir na relação, mesmo enfrentando infidelidade e abusos no processo. Mas, quando ela consegue levar a família toda para dentro da igreja, a vida fica mais previsível –porque sabe onde o marido está– e ela obtém um status de poder dentro de casa, como mediadora do sagrado.

E como fica a questão da violência doméstica? É uma situação complexa: existem pesquisas que falam que o cristianismo evangélico esconde os problemas, e eu não duvido que esses casos aconteçam. Mas sempre me prendo ao fato de que, se as mulheres são maioria nas conversões pentecostais e lideram esse processo, elas certamente veem vantagens: autonomia, segurança, trabalhos fora do bairro, continuidade dos estudos e até mesmo esperar para ter filhos em nome da profissão.

Quando pesquisei em Salvador, não podia falar com qualquer mulher adulta, porque abria espaço para fofoca, mas, com a mulher evangélica, não havia esse problema, não era a mesma carga de vigilância da sociedade. Por isso, ela consegue ter um espaço maior de atuação. E nesse Brasil popular, quando a família está toda dentro da igreja, constata-se que a mulher consegue trabalho com carteira assinada muito mais facilmente.

Juliano Spyer, 50
Nasceu em São Paulo. Historiador formado pela USP, tornou-se mestre e doutor em antropologia pela University College London. Trabalhou nas mídias sociais da campanha presidencial de Marina Silva em 2010. Atualmente, é head de insights comportamentais da empresa Behup. Autor de “Povo de Deus – Quem São os Evangélicos e Por Que Eles Importam” (Geração Editorial, 280 págs).

Sobre joaoantonio60

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