Personalidade autoritária move policial que tirou paraplégico negro à força de carro

“É inaceitável que gestores públicos possam ser tolerados e até apoiados financeiramente desde que assegurem que reformas de interesse da “elite” sejam realizadas, a preço de uma mortandade sem fim, principalmente da população mais vulnerável.”

Homem de moleton azul é agredido por policiais
Imagens de câmera instalada na farda policial mostram policiais arrastando o homem de seu carro – Reprodução/Departamento de Polícia de Dayton

Por Cida Bento

Clifford Owensby, de 39 anos, homem negro paraplégico, disse que se sentiu impotente quando foi puxado por policiais, para fora do seu veículo, depois foi jogado no chão e algemado antes de ser colocado na parte traseira de um carro de patrulha. Owensby disse repetidamente aos agentes que não podia sair do carro, pois era paraplégico. Agarrou-se ao volante e então foi tirado à força do veículo.

“Eu não deveria ter que sair de casa todos os dias me perguntando se isso vai acontecer comigo de novo” diz ele. O caso aconteceu em setembro de 2021, em Ohio, nos EUA e está sendo investigado.

A ação policial foi registrada pela câmera de vídeo de um dos próprios agentes e vem ganhando visibilidade nos últimos dias.

O exercício de uma violência racial tão explícita, cometida por agentes do estado chama a atenção, pois foi filmado por câmeras instaladas nas roupas dos próprios policiais revelando que, de alguma maneira, eles se sentem autorizados a proceder desta forma.

Em períodos de forte autoritarismo em que líderes políticos colocam para fora seu racismo, antissemitismo, machismo, homofobia sem censuras, cria-se um clima social onde este tipo de violência explícita prolifera, provocando, mobilizando apoio dos segmentos mais conservadores da população.

É um tipo de ação que lembra os estudos da teoria da Personalidade Autoritária, sobre preconceito realizados durante o regime nazista, que revelam que em períodos de crise social, econômica e política, o povo resolve sua necessidade de encontrar bodes expiatórios para descarregar ira e frustração, escolhendo e fortalecendo líderes que exercem a violência sempre contra grupos que consideram inferiores ou “não iguais”.

Neste contexto, pessoas ou grupos são colocadas fora do limite em que estão vigendo regras e valores morais, mostrando que a norma da afeição humana foi violada e está ocorrendo um distanciamento psicológico e ausência de compromisso moral em relação aos que são considerados “não iguais”. Eles estão fora do nosso universo moral e “autorizam” o exercício da maldade humana.

No Brasil, o foco deste tipo violência é principalmente a população negra, que representa 77% das vítimas de homicídio, segundo o Atlas da Violência 2021, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Uma pesquisa divulgada em 2016, por este mesmo Fórum, revela que para 70% da população, os policiais costumam abusar da violência, ainda assim 60% concorda com a frase “bandido bom é bandido morto”. E o perfil deste bandido no imaginário social é negro, mesmo que estejamos saturados de ver seguidamente na televisão, como no caso da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid-19, agentes privados em conluio com agentes públicos, cuja maioria não é negra, não é de periféricos, não é pobre (muito pelo contrário), exercendo grandes roubos e desvios de recursos públicos que geram a morte de milhares de brasileiros.

Assim é que temos que comemorar quando organizações públicas e privadas se posicionam e se movimentam em direção a um Brasil menos desigual e violento, mais justo e equânime. Porém este processo deve ocorrer de maneira sistêmica.

É inaceitável que gestores públicos possam ser tolerados e até apoiados financeiramente desde que assegurem que reformas de interesse da “elite” sejam realizadas, a preço de uma mortandade sem fim, principalmente da população mais vulnerável.

Não há ESG (sigla em inglês para medir as práticas ambientais, sociais e de governança de organizações), não há políticas de diversidade e equidade, que minimizem os estragos causados ao país, quando estes líderes no executivo, no legislativo, no judiciário e no mundo corporativo são apoiados e fortalecidos.

Cida Bento Conselheira do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), é doutora em psicologia pela USP

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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