O povo estava ausente em 1822

Na matéria publicada hoje pelo jornal folha de São Paulo – “O povo ausente em 1822”- a pesquisadora do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa, Isabel Lustosa, divergindo da história oficial ensinada nas escolas brasileiras, fala da ausência do povo nas ações que resultaram na independência brasileira consolidada ao longo da década de 1820/1830.

Publico abaixo trecho da matéria, que por sinal sugiro aos interessados que leiam a sua íntegra no caderno Ilustríssima do referido jornal. Vale a pena!

Retrado de Dom João VI
Retrado de Dom João VI pintado por Domingos Sequeira – Reprodução

“De que forma, afinal, esses povos entram na história da Independência? Na minha maneira de ver, não entram. Não é que o povo tenha assistido a tudo bestializado, tal como no preconceituoso e estigmatizador comentário de Aristides Lobo sobre a Proclamação da República.

Até porque, aquela cena às margens do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, teve poucas testemunhas — e houve mesmo controvérsias, nos anos seguintes, se deveria mesmo ser considerada a principal data da Independência. Ao que parece, nossa emancipação só começou a ficar estabelecida a partir de 1825, e tal reconhecimento em si teria sido fruto de uma manobra política.

Como revelaram as pesquisas de Maria de Lourdes Viana Lyra, foi no contexto da assinatura do tratado da Independência com Portugal, em 1825, que o Visconde de Cairu escolheu o episódio para dar protagonismo a dom Pedro, eliminando de uma só tacada todos os elementos da elite cultural e econômica do centro-sul que impulsionaram o movimento.

Os constitucionalistas da maçonaria, assim como José Bonifácio de Andrada e Silva, que tanto os perseguira, foram afastados do entorno do trono para dar lugar aos representantes dos interesses econômicos que orientariam a política nacional daí em diante.

Tudo isso sugere que devemos sempre repensar a forma como as datas oficiais vão sendo construídas e sacramentadas no imaginário nacional.

Em 1822, o povo mal ouviu falar da Independência porque esse tipo de assunto não lhe dizia respeito. Afinal, o chicote que cortava as costas das vítimas da escravidão não se tornaria menos violento se o Brasil fosse independente.

Mesmo os cidadãos alfabetizados, com algum nível de conhecimento, mas sem posses, não teriam direito a voto na nova ordem, pois, pelo sistema censitário estabelecido pela Constituição de 1824, que duraria até a República, só votava quem tivesse renda.”

Leia a matéria na íntegra. Acesse: “O povo ausente em 1922.” Como cantou Milton Nascimento: “… o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir…”

Isabel LustosaPesquisadora do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e autora dos livros ‘Insultos Impressos: a Guerra dos Jornalistas na Independência’ (Companhia das Letras, 2000) e ‘O Jornalista que Imaginou o Brasil: Tempo, Vida e Pensamento de Hipólito da Costa’ (Editora da Unicamp, 2019)

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