“O legado de Seu João”- crônica de Mimila K Rocha

Seu João era um homem nascido no Interior de Minas Gerais. Mais especificamente no Norte daquele Estado. Até os seus 40 anos viveu na roça combinando o trabalho duro do campo e a arte da carpintaria. Dotado de habilidades especiais, zelava pelo meio ambiente e regava seu plantio com a mesma sensibilidade com que transformava a madeira bruta em objetos úteis. Um artista!

Uma de suas características era ser autêntico. Nas suas verdades não havia o elemento da imposição: seus autênticos argumentos serviam apenas às duradouras prosas com os amigos. Interativo, não desprezava bons “causos” – aqueles que os autênticos mineiros contam para animar uma roda de conversa.

Sereno, fugia das agitações, tampouco trocava o sossego do seu lar pelas incertezas do mundo lá fora.

Cauteloso? Sim! No sentido da prudência, combinava a sensatez com a precaução como forma de domar as inconveniências e superar os obstáculos. Na verdade, as dificuldades, próprias do nosso cotidiano, eram vistas com a naturalidade de um sábio e encaradas com a necessária paciência frente aos assuntos delicados.

O tempo na sua vida não era um estorvo, pelo contrário, soava como um alerta – um chamamento à ação administrada no espaço possível. Eram as circunstâncias que ditavam o ritmo do seu agir ponderado.

Seu principal foco: viver com a intensidade dos sábios. Agia em conformidade com a razão. Para ele, liberdade e moral se projeta no espaço com a mesma intensidade; era a prudência que ditava as regras do comportamento coletivo.

Não fazia das suas convicções um elemento do dissenso. Sabia que a concórdia era resultante da justa composição das diferenças, aquelas inerentes aos seres humanos.

Não tolerava as diferenças resultantes da ambição humana: preferia administrar o pouco e viver com tranquilidade. Via no gesto solidário um estender de mão sem discriminação, ou seja, a construção do futuro.

Assim viveu Joãozinho, como chamavam alguns dos seus amigos mais íntimos, ou João de Eusébio, para os moradores da fazenda Areião no Norte de minas, ou simplesmente João.

Morreu em 1998 deixando para filhos e netos as lições de um verdadeiro sábio. Sempre foi um erudito a seu modo e complexo na sua deliberada simplicidade.

Mimila K Rocha

Sobre joaoantonio60

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