A arte de viver em tempos trágicos – Como aprender a curar as doenças da alma, do corpo e do coração?

A primeira tarefa da pessoa que deseja viver sabiamente é se libertar do hábito de se preocupar demais consigo mesma. Devemos seguir sem hesitar todos os nossos impulsos generosos, especialmente quando um amigo precisar. A frase de Caio Fernando Abreu, que adotei como um mantra, traduz com perfeição essa ideia: “Um amigo me chamou para cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso, e fui”.

um homem sentado no chão leva as mãos a cabeça
imagesetc – stock.adobe.com

Por Mirian Goldenberg

Todas as vezes que acho que não vou conseguir sobreviver a tanto ódio, violência e maldade, eu me agarro aos livros como uma tábua de salvação. O meu atual livro de cabeceira é “A arte de viver: o manual clássico da virtude, felicidade e sabedoria”, de Epicteto (uma interpretação de Sharon Lebell).

Epicteto acreditava que temos a capacidade de nos tornar o médico da nossa própria alma. Quero compartilhar com vocês dez lições do filósofo estóico que estão me ensinando a encontrar força, coragem e equilíbrio para continuar trabalhando, escrevendo e cuidando de quem eu amo.

  • A felicidade e a liberdade começam com a compreensão de um princípio: algumas coisas estão sob nosso controle e outras não. Nós conquistamos a liberdade aprendendo a distinguir o que depende de nós e o que não depende.
  • Não podemos escolher as circunstâncias externas de nossa vida, mas sempre podemos escolher a maneira como reagimos a elas. Mesmo nas circunstâncias mais dramáticas ainda temos a liberdade de escolher a melhor atitude que podemos ter frente às adversidades.
  • Não importa o que está acontecendo ao nosso redor, podemos sempre fazer o máximo e o melhor que estiver ao nosso alcance. É preciso colocar o foco nos nossos propósitos para construir uma vida com beleza, bondade e significado.
  • Cada dificuldade oferece uma oportunidade para nos voltarmos para dentro de nós e recorrermos aos nossos recursos interiores escondidos e até mesmo desconhecidos. As provações que suportamos podem revelar quais são as nossas forças. Ao aceitar as nossas limitações, em vez de lutar contra elas, nos tornamos livres.
  • A vida é muito curta. Não podemos desperdiçar nosso tempo com bobagens e mesquinharias. O tempo é o nosso bem mais precioso.
  • As pessoas não têm o poder de nos ferir ou criar obstáculos. Tudo aquilo que pertence aos outros é problema deles, não nosso. Nossos esforços devem ser canalizados para boas atividades, e não desperdiçados em brigas e conflitos com os outros. O segredo é só procurar a companhia de pessoas que nos elevem, cuja presença desperte o que há de melhor em nós mesmos. E nos afastar das pessoas que nos diminuem e provocam o que temos de pior.
  • Não podemos depender da admiração e reconhecimento dos outros. Não é importante o que os outros pensam de nós. Não devemos ter medo de agressões verbais e críticas descabidas. Só os moralmente fracos se sentem impelidos a se defender ou se explicar aos outros. Não é possível controlar as impressões negativas e injustas que os outros têm a nosso respeito.
  • A primeira tarefa da pessoa que deseja viver sabiamente é se libertar do hábito de se preocupar demais consigo mesma. Devemos seguir sem hesitar todos os nossos impulsos generosos, especialmente quando um amigo precisar. A frase de Caio Fernando Abreu, que adotei como um mantra, traduz com perfeição essa ideia: “Um amigo me chamou para cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso, e fui”.
  • Precisamos tirar o maior proveito possível daquilo que é nosso de verdade e parar de desejar ser outra coisa além do máximo e melhor de nós mesmos.
  • Devemos procurar ser generosos com nós mesmos, não nos comparar com os outros ou com quem gostaríamos de ser. Precisamos nos perdoar muitas e muitas vezes, e tentar aprender algo de positivo com os nossos erros e imperfeições.

Apesar de ser difícil me curar do desespero, depressão e desesperança, estou tentando aprender a não me afetar com as atitudes agressivas e egoístas dos outros; não sofrer com opiniões injustas, preconceituosas e ignorantes; não me comparar com outras pessoas e não desejar ser outra coisa além do máximo e melhor de mim mesma; não me culpar e cobrar tanto por minhas faltas, defeitos e erros. Afinal, ninguém consegue agradar a todo mundo e acertar sempre, não é mesmo?

Mirian GoldenbergAntropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de “A Bela Velhice”.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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