Onde Há Inveja, não Há Amizade – de Luis Vaz de Camões – para sua reflexão

Grande trabalho é querer fazer alegre rosto quando o coração está triste: pano é que não toma nunca bem esta tinta; que a Lua recebe a claridade do Sol, e o rosto, do coração. Nada dá quem não dá honra no que dá: não tem que agradecer quem, no que recebe, a não recebe; porque bem comprado vai o que com ela se compra.

Nada se dá de graça o que se pede muito. Está certo! Quem não tem uma vida tem muitas. Onde a razão se governa pela vontade, há muito que praguejar, e pouco que louvar.

Nenhuma cousa homizia os homens tanto consigo como males de que se não guardaram, podendo.

Não há alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este purgatório a que chamais honra; donde muitas vezes os homens cuidam que a ganham, aí a perdem.

Onde há inveja, não há amizade; nem a pode haver em desigual conversação.

Bem mereceu o engano quem creu mais o que lhe dizem que o que viu. Agora, ou se há-de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, perguntai-lhe de onde vem; vereis que algo tiene en el cuerpo, que le duele. Ora temperai-me lá esta gaita, que nem assim, nem assim achareis meio real de descanso nesta vida; ela nos trata somente como alheios de si, e com razão:

Pois somente nos é dada 
para que ganhemos nela 
o que sabemos. 
Se se gasta mal gastada, 
juntamente com perdê-la, 
nos perdemos. 

Enfim, esta minha Senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, é a mais fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve é, 

ponderemos e vejamos
que ganhamos em viver
os que nascemos:
veremos que não ganhamos
senão algum bem fazer,
se o fazemos.

E, por isso, respeitando 

que o porvir tal será, 
entesouremos ; 
porque [ao certo] não sabemos 
quando a morte pedirá 
que lhe paguemos. 

Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte; sendo mais aborrecida que a verdade, tem-se em menos conta que a virtude. Mas, contudo, com seu pensamento, quando lhe vem à vontade, acarreta mil pensamentos vãos; que tudo para com ela é um lume de palhas. Nenhuma cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na maior bonança, como ela; porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os corpos à costa; e se vem à mão, com as almas no inferno, que é bem ruim gasalhado: 

E pois todos isto temos, 
não nos engane a riqueza, 
por que tanto esmorecemos, 
e trás que vamos; 
já que temos a certeza 
que, quando mais a queremos, a deixamos. 

Gastamos em alcançá-la 
a vida; e quando queremos 
usar dela, 
nos tira a morte lográ-la; 
assim que a Deus perdemos 
e a ela. 

Luís Vaz de Camões, da obra “Cartas”

Biografia de Camões

Filho de Simão Vaz e Ana de Sá, Luís Vaz de Camões nasceu em Lisboa por volta de 1524. Provavelmente teve uma boa e sólida educação, na qual aprendeu sobre história, línguas e literatura.

Estudos indicam que ele era indisciplinado e que supostamente teria ido à Coimbra para estudar. No entanto, não há registros de que ele tenha sido aluno da Universidade.

Ainda jovem, interessou-se pela literatura iniciando sua carreira literária como um poeta lírico na corte de Dom João III. Muitos historiadores dizem que nesse período Camões teve uma vida muito boêmia. Na altura, também passou por uma desilusão amorosa, momento em que decidiu tornar-se um soldado.

Assim, ingressou no Exército da Coroa Portuguesa em 1547 e, no mesmo ano, embarcou como soldado para a África. Foi ali que Camões perdeu o olho direito.

Em 1552, ele volta a Lisboa e continua com sua vida boêmia e de promiscuidade. No ano seguinte, embarca para as Índias, onde participa de várias expedições militares.

Estudos apontam que ele foi preso tanto em Portugal, quando no Oriente. Foi durante uma de suas prisões que ele escreveu sua obra mais conhecida: Os Lusíadas.

Quando retornou a Portugal, resolveu publicar sua obra. No momento, recebeu uma pequena quantia em dinheiro do Rei Dom Sebastião. Muitas vezes incompreendido pela sociedade, Camões se queixou pelo pouco reconhecimento que teve em vida. Foi somente após sua morte que sua obra passou a ser foco das atenções.

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