Ponto de vista: Masculino e Feminino

“…em tempos de machismo e sexismo institucionalizados em Brasília e de novas ameaças dos talibãs às mulheres no Afeganistão, foi alentador assistir ao protagonismo feminino em Tóquio e ao avanço na equidade de gêneros. Afinal, como nos lembra Pepeu Gomes, “se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino”.

O protagonismo das mulheres brasileiras nas Olimpíadas de Tóquio 2021

Por Inaldo da Paixão Santos Araújo* e Luciano Chaves de Farias*

Sem querer adentrar a questão da conveniência e a da oportunidade da realização das Olimpíadas de Tóquio, abordaremos aqui uma situação que nos chamou atenção e que pode servir de exemplo para a contínua evolução da humanidade.

Aqui mesmo neste espaço, já foram trazidas algumas abordagens sobre a 32ª edição dos jogos. Inclusive, em um texto anterior, foram tecidas críticas à falta de investimentos sérios em educação esportiva, bem como trazidas sugestões para o desenvolvimento do esporte no país, como a retomada dos jogos estudantis (In: Meus jogos olímpicos no Luiz Vianna, por Inaldo da Paixão Santos Araújo, Edição de 13/09/2021)

Agora, poderíamos falar sobre o recorde de pódios brasileiros, com 21 medalhas, apesar dos tímidos investimentos feitos na área, mormente após a extinção do Ministério do Esporte (criado em 1995 e extinto em 2019) e a redução significativa de 50% do seu orçamento, impactando sensivelmente no programa “Bolsa Atleta”.

Poderíamos exaltar as admiráveis performances e medalhas das meninas Rayssa Leal e Rebeca Andrade, que já são as novas sensações e os “xodós” nacionais. A Fadinha, com sua inocência, sua pureza e sua alegria de criança (e suas dancinhas do “Tik Tok”), características aliadas a sua fenomenal aptidão e competência para o esporte, encantou o mundo. E Rebeca Andrade, com seus saltos quase perfeitos e seu “baile de favela”, foi um verdadeiro furacão de beleza, técnica, maturidade e simpatia.

Poderíamos destacar a 16ª edição dos Jogos Paralímpicos, com o Brasil levando sua maior delegação (258 atletas). O país, desde a edição de Pequim em 2008, tem se destacado e figurado entre os dez melhores. Esse evento inclusivo nos ajuda a mostrar que ser diferente é normal e que todos importam. 

Apesar dessa ampla possibilidade de pauta, ressaltaremos aqui um outro aspecto digno de nota, qual seja, o caminho da paridade entre o masculino e o feminino nestas Olimpíadas. De maneira inédita, os Jogos tiveram 49% de atletas mulheres. A delegação brasileira ficou próxima, sendo 47% feminina. Cabe registrar que a primeira atleta mulher a integrar a delegação brasileira em Olimpíadas foi Aída dos Santos, nas de Tóquio em 1964. Naquela edição, as mulheres representaram apenas 13% do total dos atletas. 

Na verdade, podemos enxergar esse movimento olímpico como uma consequência do próprio movimento da sociedade. Em meio século de história que separa aquela edição de 1964, em Tóquio, desta edição de 2020, podemos notar grandes mudanças e avanços na sociedade. Como olvidar que foi só em 1932 que o Código Eleitoral Brasileiro passou a assegurar o voto feminino? Mas esse reconhecimento dos direitos das mulheres e o inevitável aumento da participação feminina na sociedade não são uma concessão, uma benesse, foram (e continuam sendo) um produto de luta, de conquistas. E não é igualdade, é reconhecimento! A igualdade formal nunca acontecerá, porque existem diferenças entre ser homem e ser mulher. Então, o que se busca é a equidade (igualdade material). E essas Olimpíadas também nos mostraram esse necessário caminho.

Nessa toada, devemos enaltecer, ainda, a relevante ampliação das competições mistas nesta edição do Japão. Se, antes, só o hipismo e o tênis possuíam essa característica, agora homens e mulheres, juntos, competem em mais outras modalidades: atletismo, judô, natação, tênis de mesa, tiro e triatlo. Assim, além desse aumento significativo de categorias, as disputas mistas chegaram aos esportes olímpicos mais tradicionais, como atletismo, natação e judô.

Obviamente que nem tudo são flores! O caminho para se chegar a uma plena equidade de gêneros ainda é longo. Mas esses jogos nos mostraram que estamos caminhando com passos firmes. Fazemos votos de que esse legado olímpico da conquista das mulheres se traduza em mudanças duradouras. Sabemos que, em algumas modalidades, as mulheres já têm patrocínios e premiações equivalentes aos dos homens, mas, na maioria dos esportes, ainda é preciso lutar muito para que isso aconteça. E essa luta é de todos e não só das mulheres.

Portanto, em tempos de machismo e sexismo institucionalizados em Brasília e de novas ameaças dos talibãs às mulheres no Afeganistão, foi alentador assistir ao protagonismo feminino em Tóquio e ao avanço na equidade de gêneros. Afinal, como nos lembra Pepeu Gomes, “se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino”.

Inaldo da Paixão Santos Araújo – Mestre em Contabilidade. Conselheiro-corregedor do TCE/BA. Professor. Escritor.

Luciano Chaves de FariasMestre em Políticas Sociais e Cidadania. Secretário-geral do TCE/BA. Professor. Escritor.

Publicado originalmente no jornal Tribuna da Bahia

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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