“A primavera de Tarcísio” é o título da crônica de Gabriel Chalita

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A PRIMAVERA DE TARCÍSIO

Por Gabriel Chalita

É ainda inverno. Dia quente de inverno e o coração de Tarcísio Padilha vai se despedindo do lado de cá do mistério. Do lado de lá, já é primavera. Do lado de lá, é sempre primavera.

A morte é a primavera da alma. Difícil compreender, simples acreditar. Do lado de cá, as árvores se vestem de morte no inverno e, depois, desacreditando a lógica, ressurgem perfumando de esperança o mundo.

Tarcísio é o filósofo da esperança. É, com o verbo conjugado no presente. A morte não deposita a vida no passado. Tarcísio é.

Viajo em mim e encontro Tarcísio e Ruth, a mulher tão amada, sentados no conforto da bondade. Os bons não têm as perturbações dos que se amarram ao passado, por descuido com a vida. Encontro os dizeres garimpados para preencher o encontro de beleza. Enquanto falam, sentados um ao lado do outro, as mãos deslizam em cumplicidade. São setenta anos de casamento. São geradores de vida:  de filhos e de pensamentos de crença na humanidade.

Conversa ele sobre os filósofos humanistas. Conversa ela sobre a memória do marido tão preenchida de bons temas.
Conversa ela sobre os filhos e o futuro dos dias que virão. Conversa ele sobre lucidez e serenidade. Júlio, o mineiro entregador de alegrias, brinca de explicar o que é admirar, “olhar com amor”. E, dos seus olhos, nascem gratidão. E, então, a fumaça do café sobe, simbolizando o prazer de saber que nada sabemos sobre o que vive além do que vemos. Do café, entretanto, as delícias de mais um instante fugidio. Gratidão é estar ali. 

No dia do despedir do coração humano de Tarcísio, Ruth também estava no hospital.
Os dois em espaços diferentes tratando enfermidades do corpo.  O vírus silencioso, que calou a humanidade, desrespeitou aquele lar tão bonito. Ruth e Tarcísio não estavam em espaços separados para os que compreendem os cômodos do amor. Nunca estiveram, desde que decidiram formar um, sem deixar de ser dois.

Os filósofos estoicos diziam que viver é aprender a morrer. E outros repetiram. E podemos nós aprender. Tarcísio viveu a vida plenificando vida por onde passava. Alunos seus se referem ao professor como um professador da fé em uma humanidade que pode ser melhor.

O dia quente de inverno no verão causa um certo estranhamento em quem presta atenção às estações. Mas os estranhamentos maiores são as dores que os homens são capazes de gerar nos próprios homens. Homens deveriam gerar vida, mas se perdem. E, na vida, há homens que servem para nos ajudar a encontrar.

Professor Padilha, a primavera do lado de cá ainda não chegou. Mas vai chegar. Quem crê sabe disso. E, quando chegar, saiba que um pouco da desabrochada beleza nasceu dos seus ditos tão cuidadosos com a vida.

Obrigado, amigo, que tardiamente conheci, mas que reconheci desde o primeiro encontro como uma luz iluminadora de esperanças.

Boas aulas do lado de lá, amado professor Tarcísio Padilha.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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