Que golpe seria esse de Bolsonaro?

“Por último, a terceira via é aquela tratada pelos cientistas políticos americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em “Como as Democracias Morrem”. Eles descrevem um lento processo de corrosão das instituições democráticas, promovido por um governante legitimado pelo voto. Para ter êxito, o candidato a autocrata depende, além de amplo respaldo das ruas, de robusta maioria parlamentar que lhe permita aprovar leis adequadas a seus propósitos…”

Fortes ventos antidemocráticos rasgam a bandeira do Brasil

Por Maria Hermínia Tavares

Autoritário por índole, Bolsonaro quer ser ditador. Fala em liberdade e democracia enquanto ameaça opositores e investe virulentamente contra as instituições que as garantem. Não faz outra coisa senão atacá-las. Sem sombra de dúvida, é um golpista em tempo integral. Mas a bordoada que pretende desferir no sistema pelo qual se elegeu segue roteiro improvável.

A literatura sobre golpes registra três caminhos para o sucesso. No primeiro, o titular do governo, diante de ameaça grave —ainda que forjada–, obtém o apoio dos poderosos e das Forças Armadas para impor uma ordem autoritária. Foi o caso de Getúlio Vargas em 1937, ao criar o Estado Novo. No segundo cenário, em clima de conflagração política, elites civis e militares conspiram para derrubar o mandatário eleito e, se bem-sucedidas, enterrar a democracia. Esse foi o golpe que se abateu sobre o país em 1964.

Por último, a terceira via é aquela tratada pelos cientistas políticos americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em “Como as Democracias Morrem”. Eles descrevem um lento processo de corrosão das instituições democráticas, promovido por um governante legitimado pelo voto. Para ter êxito, o candidato a autocrata depende, além de amplo respaldo das ruas, de robusta maioria parlamentar que lhe permita aprovar leis adequadas a seus propósitos. Precisa contar ainda com um Judiciário fraco e obsequioso; uma imprensa passível de ser controlada ou comprada; e um estamento militar cooptado com benesses e mudanças de regras que propiciem a ascensão rápida dos simpatizantes do regime de força. Esse está longe de ser um caminho aplainado: eis por que se contam nos dedos de uma das mãos os casos de pleno êxito da empreitada autoritária.

Não é bem o caminho que tem sido percorrido pelo ocupante do Planalto. Com apoio de apenas 1 em cada 4 brasileiros, a sua gestão é um fracasso de ponta a ponta. Ele tampouco logrou construir uma base parlamentar bastante ampla para arrimar um legalismo autoritário. O STF tem lhe infligido sucessivas derrotas. A mídia convencional lhe é refratária. Mesmo nas redes sociais, seu meio por excelência, o ex-capitão bombista vem perdendo espaço para os adversários. Grandes lideranças da economia, como se acaba de ver, começam a recear abalos que a sua conduta destrutiva tende a desencadear.

No Dia da Pátria, o aspirante a ditador escancarou os limites de sua força. Pôs nas ruas os milhares que o seguem cegamente. Eles lhe serão úteis para disseminar violência e caos —condição necessária, mas decerto insuficiente para um golpe bem-sucedido.

Maria Hermínia TavaresProfessora titular aposentada de ciência política da USP e pesquisadora do Cebrap. Escreve às quintas-feiras.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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