7 de setembro: profecia de pastores para atos confirma abandono de Jesus – texto do pastor e teólogo Ronilso Pacheco

“O cristofascismo pode ser uma categoria ainda em construção no Brasil, mas seu sentido e sua estética são perfeitamente identificáveis. E, nesta semana do 7 de Setembro, eles irão querer mostrar que definitivamente estão dispostos a levar o país ao limite da radicalidade, pregando uma manifestação pacífica enquanto estão plenamente conscientes de que pacifismo e bolsonarismo não se alinham em nenhuma realidade.”

O aumento da participação de grupos religiosos conservadores na política ao longo das últimas décadas – Foto: prodbdf – Flickr /Fotomontagem Jornal da USP

O cristofascismo dos púlpitos e do armário

Por Ronilso Pacheco

O teólogo e historiador Fábio Py tem popularizado no Brasil a categoria de “cristofascismo”, com a qual identifica o grupo cristão que, integrando-se ao governo Bolsonaro diretamente ou dando-lhe apoio incondicional, fortalece seu uso da religião e de uma teologia do domínio como escudo para seu caráter autoritário.

Py empresta a expressão da teóloga alemã Dorothee Solle, que a usou no contexto do nazismo para se referir à íntima relação entre líderes cristãos e o partido de Adolf Hitler. Solle cunha a expressão em 1970 no livro “Além da Mera Obediência”, no qual trata dos rumos de uma ética cristã para o futuro.

O cristofascismo pode ser uma categoria ainda em construção no Brasil, mas seu sentido e sua estética são perfeitamente identificáveis. E, nesta semana do 7 de Setembro, eles irão querer mostrar que definitivamente estão dispostos a levar o país ao limite da radicalidade, pregando uma manifestação pacífica enquanto estão plenamente conscientes de que pacifismo e bolsonarismo não se alinham em nenhuma realidade.

Porém o que não pode ser dito ou ignorado sobre esse grupo diz respeito à sua “fidelidade” ao bolsonarismo. Eles mantêm a cara exposta para ser vista, reconhecida e rechaçada. Três anos depois, o bolsonarismo levou o país ao caos, à mediocridade, ao aumento da pobreza e da fome e aos piores índices na qualidade da educação e em investimento em pesquisa e cultura. É um país politicamente mais violento e ameaçador. Mas a ascensão do bolsonarismo tem muito mais do que a adesão fundamentalista e reacionária evangélica.

Se há uma intensa responsabilização dos evangélicos pentecostais e neopentecostais pelo apoio a Bolsonaro e suas aspirações totalitárias e violentas, é hora de olhar para a responsabilidade do mercado financeiro, de grande parte dos grandes banqueiros brasileiros, de parte significativa dos grandes empresários, dos donos da grande mídia brasileira e até dos descolados ideólogos dos movimentos da “nova política” no país, que ignoraram o sujeito Bolsonaro, desde que ele “barrasse a esquerda” e deixasse a economia fluir segundo a cartilha do neoliberalismo.

Neste 7 de Setembro, só um grupo estará majoritariamente nas ruas, convocando seu rebanho para a “guerra”. O outro ficará em silêncio, fingindo-se chocado e surpreso, mesmo sabendo que não sentiu nenhum desconforto (e provavelmente ainda não sente), em ver o país ser governado por quem elogia torturadores, ofende gays, ridiculariza a comunidade negra, zomba do direito dos povos indígenas, despreza as políticas de proteção ambiental e tem uma tara em agredir verbalmente mulheres jornalistas e parlamentares. Adoram todos o mesmo deus.

Ronilso PachecoPastor e teólogo (PUC-Rio), é professor-adjunto no Manhattan College (Nova York) e mestrando em religião e sociedade no Union Seminary (Columbia University). Autor de “Jesus e os Direitos Humanos” (Usina de Valores) e “Teologia Negra: o Sopro Antirracista do Espírito” (ed. Novos Diálogos)

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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