A democracia como fetiche e a ocultação do debate econômico

Hoje, o artigo publicado aqui no blog Traço de União traz, nas palavras de Silvio Almeida, uma reflexão sobre o jeito oportunista, medíocre, e pragmático da elite econômica do brasileira. Temas de relevância social: renda mínima; meio ambiente; direitos trabalhistas; marco temporal na demarcação de terras indígenas entre outros, encontram-se sob ataque constante desse tal “mercado”. Dito de outra forma: o “mercado” – essa espécie de objeto não identificado – é sempre utilizado pelos donos do poder econômico como uma espada apontada para os políticos, que por sua vez, ressalvadas algumas excessões, por dependência ou comprometimento, se submetem aos caprichos imediatistas do lucro a qualquer preço. Com bem resumiu Silvio Almeida: “Com efeito, são os interesses de classe que explicam a hesitação de parte do empresariado em abandonar o governo, ainda que o “bolsoguedismo” só tenha produzido fome, peste, destruição e trevas (literalmente).” Leia o texto abaixo. Tire suas conclusões.

Bolsonarismo é um problema de economia política e não se resume a autoritarismo

Por Silvio Almeida

Tanto quanto as ameaças de golpe do presidente da República e seus apoiadores, chama a atenção a facilidade com que o bolsonarismo vem sequestrando o debate nacional.

Estamos praticamente a um ano do bicentenário da Independência do Brasil. Em outras condições, seria o momento para a preparação de grandes debates sobre o passado, presente e futuro do país. Mas o que hoje o país experimenta é o desmantelamento progressivo de suas instituições, a destruição acelerada de sua economia e a visível pauperização de seu povo.

E mesmo diante desse estado de coisas, a impressão que se tem é que a única discussão possível é acerca da possibilidade de um golpe de Estado no dia 7 de Setembro deste ano.

Não estou minimizando as constantes ameaças de golpe e seus efeitos nefastos sobre o país. Tampouco desprezo o risco de ações violentas que possam vir a ser praticadas pelos seguidores do presidente. O que quero ressaltar é a eficiência com que o bolsonarismo tem cumprido a missão de bloquear os debates acerca dos problemas nacionais.

A pergunta é: de onde vem esta eficiência, este poder de prestidigitação? Reputo que são dois os fatores que podem, eventualmente, nos encaminhar a uma explicação.

O primeiro fator é um fetiche em torno de noções idealistas e moralistas de democracia e autoritarismo. Algumas pessoas sem compreensão da complexidade da luta politica e apavoradas com a facilidade com que o presidente e seus asseclas amedrontam o país acham que isso se deve a uma atávica passividade do povo brasileiro.

Na verdade, a maior parte do povo brasileiro se opõe diária e sistematicamente à violência e ao autoritarismo, que não é exclusividade deste governo e nem começou agora.

O problema é que a imposição de bloqueios a uma efetiva participação popular na vida política no mais das vezes tem sido possível por obra e graça de instituições que neste momento são diretamente ameaçadas pelo bolsonarismo, como é o caso do Judiciário e de parte da imprensa.

Portanto, ao se denunciar o “autoritarismo” é importante que se diga que não se trata de um fenômeno recente, que não se restringe à quadra atual e que também não irradia apenas do Palácio do Planalto. Por mais que seja necessário defender a democracia, especialmente em períodos de ascensão do fascismo, as pessoas não irão se mobilizar para defender o que não entendem, não sentem ou que acreditam não existir.

O segundo fator é que a mobilização contra o bolsonarismo tem seu limite na realidade econômica. Jair Bolsonaro é o “malvado favorito” de alguns setores da economia nacional justamente porque não tem modos; ele detém, portanto, as condições subjetivas para literalmente “enfiar goela abaixo” de trabalhadores e minorias pautas de devastação nacional como o marco temporal na demarcação de terras indígenas, a reforma trabalhista e a desregulação das normas de proteção ao meio ambiente, coisas que gente muita fina e elegante até deseja, mas que não tem coragem de assumir.

A discordância que alguns setores podem ter com o bolsonarismo é puramente estético. Há, inclusive, os que denunciam o autoritarismo a partir de doutrinas estrangeiras, mas que eloquentemente se calam diante do desastre social.

Com efeito, são os interesses de classe que explicam a hesitação de parte do empresariado em abandonar o governo, ainda que o “bolsoguedismo” só tenha produzido fome, peste, destruição e trevas (literalmente).

O fetiche em noções a-históricas de autoritarismo e democracia e a ocultação da questão econômica talvez expliquem a redução do debate político a eleições e cartas de repúdio. É um governo autoritário? É. É um governo que corrói as instituições? Sim, não há dúvida. Mas para ser realmente compreendido e confrontado, o bolsonarismo tem que ser encarado, fundamentalmente, como um sintoma da economia política e não apenas como falha moral ou mau funcionamento das instituições.

Silvio AlmeidaProfessor da Fundação Getulio Vargas e do Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de Uniã

Sobre joaoantonio60

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