Vitória ou derrota? Uma análise de Yascha Mounk sobre a saída do EUA do Afeganistão

O jornal Folha de São Paulo traduz hoje análise de Yascha Mounk sobre a retirada das forças americanas do Afeganistão. O autor da obra “O Povo Contra a Democracia” afirma: “As imagens de helicópteros resgatando diplomatas americanos da embaixada em Cabul e de afegãos pendurados em aviões de transporte americanos na tentativa desesperada de escapar dos talibãs deverão se tornar icônicas. Elas simbolizam uma nova era de fraqueza americana e ajudarão a definir o histórico de política externa de Biden.” Fraqueza?

Na verdade, os críticos dessa postura americana de se arrogar “polícia do mundo”, nunca entenderam natural essa postura intervencionista. Até porque com o surgimento dos Estados Nacionais, respeitar a autodeterminação dos povos é uma premissa fundamental na construção da paz mundial. Leia o texto abaixo – tire suas conclusões.

O presidente Joe Biden, com a primeira-dama Jill, em cerimônia para receber os caixões de militares americanos mortos em atentado em Cabul, na base aérea de Dover – Saul Loeb – 29.ago.21/AFP

COM FRACASSO, SAÍDA DOS EUA DO AFEGANISTÃO DEIXA DE CUMPRIR SEU PROPÓSITO

Por Yascha Mounk

A conquista do Afeganistão pelo Talibã é um grande desastre.

É um grande desastre para a população afegã, que agora terá de viver sob um regime teocrático que suprime suas liberdades mais básicas, pune impiedosamente os dissidentes e oprime orgulhosamente as mulheres. É um grande desastre para muitos países da região, que agora terão de lidar com os efeitos profundamente desestabilizadores de mais uma enorme crise de refugiados.

E é um grande desastre para a credibilidade do Ocidente, cujas promessas de defender a segurança dos aliados ameaçados por concorrentes autoritários como a Rússia e a China agora parecerão ainda mais ocas.

Entre esses horrores, uma consequência mais indireta dos últimos dias foi compreensivelmente menosprezada: o fracasso abjeto dos Estados Unidos no Afeganistão também serve como contestação de uma teoria que está no centro da política externa de Joe Biden —que é, fundamentalmente, uma tentativa de responder ao desafio colocado por Donald Trump.

política externa de Trump foi uma confusão incoerente. Mas seria um erro deixar a instabilidade pessoal de Trump obscurecer a coerência fria que caracteriza suas convicções básicas sobre o mundo.

Falando de modo geral, suas opiniões sobre política externa são, como as de muitos outros populistas do mundo —incluindo Jair Bolsonaro—, conduzidas por três princípios simples.

Primeiro, ele acredita que os líderes políticos devem sempre colocar os interesses imediatos de seu próprio país acima de qualquer outra consideração. Segundo, ele acredita que o interesse nacional raramente é atendido por envolvimentos demorados ou dispendiosos em países estrangeiros. E terceiro, ele acredita que a busca desse interesse próprio muitas vezes exige que seu país infrinja regras formais e informais da política internacional.

Essa visão básica ficou plenamente visível na atitude de Trump em relação ao Afeganistão. Durante sua primeira campanha eleitoral, ele criticou frequentemente a missão. O esforço aliado lá, afirmava, estava cobrando um preço alto demais da vida e do tesouro americanos. Como ele colocou em um tuíte, “devemos deixar o Afeganistão imediatamente… Reconstruir os EUA primeiro”.

Profundamente perturbado pela ascensão de Trump, o establishment de política internacional em Washington gradualmente levou a sério partes de sua crítica. Grupos de pensadores há muito temiam a impopularidade da “ordem liberal internacional” e a falta de apoio popular para os engajamentos americanos no exterior.

O sucesso de Trump parecia provar que os velhos métodos haviam se tornado insustentáveis. O que se poderia fazer? Muitas pessoas que estão dirigindo a política externa do governo Biden —incluindo o secretário de Estado, Antony Blinken, e o assessor de segurança nacional, Jake Sullivan— se uniram em torno de uma resposta particular a essa pergunta.

Os eleitores, passaram eles a acreditar, estão convencidos de que a política externa dos EUA deixou de atender aos interesses nacionais. Para competir com Trump, concluíram, os democratas deviam abandonar complicações estrangeiras impopulares e reformular o compromisso do país com as regras internacionais como uma maneira eficaz de servir aos interesses financeiros dos eleitores.

Isso ajuda a entender a determinação de Biden a sair do Afeganistão em velocidade desenfreada. Uma clara maioria dos americanos favorecia de modo consistente a retirada das tropas do Afeganistão. A presença americana no país não servia a interesses econômicos significativos.

O fim de jogo não estava à vista. Da perspectiva de uma “política externa para a classe média”, o Afeganistão era um caso fácil.

Mas a retirada precipitada dos EUA do Afeganistão não está tendo apenas uma série de consequências trágicas para aquele país e para o mundo, como também deixa de cumprir seu propósito inicial. Destinada a enfraquecer o jogo de populistas como Donald Trump, ela só tornará mais provável sua ressurgência.

As imagens de helicópteros resgatando diplomatas americanos da embaixada em Cabul e de afegãos pendurados em aviões de transporte americanos na tentativa desesperada de escapar dos talibãs deverão se tornar icônicas. Elas simbolizam uma nova era de fraqueza americana e ajudarão a definir o histórico de política externa de Biden.

No outono (do hemisfério norte) de 2022 ou 2024, muitos americanos provavelmente terão esquecido tudo sobre a população afegã. Mas, mesmo quando sua fonte original desaparecer da memória, a impressão da fraqueza e da incompetência do governo provavelmente permanecerão.

E, para um populista como Trump, que sempre discursou sobre sua capacidade de restaurar a força americana e sua promessa de reduzir os imbróglios externos do país, isso cria uma brecha gigante.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

Yascha Mounk

Yascha Mounk O cientista social Yascha Mounk é professor associado na Universidade Johns Hopkins e autor de “O Povo contra a Democracia”.

Publicado originalmente aqui no Brasil no jornal Folha de São Paulo

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de Uniã

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