“A roleta dos dias”- crônica de Gabriel Chalita

A ROLETA DOS DIAS

Por Gabriel Chalita

Desci do carro e desliguei a teimosa paciência de prosseguir tentando. Ele disse apenas da liberdade, do espaço do respiro. Eu disse nada. Fiquei  procurando o dia em que impedi alguma liberdade, em que invadi alguma respiração. Encontrei nada.

Encontrei os dias de malfeitos no tema do respeito. A traição doeu, e eu desculpei aceitando a inaceitável desculpa de um deslize. Um?  Tolerância desnecessária. Justificou ele que, por eu ser mulher, é difícil compreender carência masculina e chorou o futuro sem mim.

Teimoso medo o meu da solidão. Aceitei a volta. Rolei para outros dias. Encontrei um em que o meu aniversário foi ocasião nenhuma. Esperei o dia seguinte. Reclamei com calma. E ele culpou o pai, tão esquecido das datas. Foi essa a herança que ele recebeu? A distração? As divisões nenhumas de tarefas. Os olhos fitos em programa qualquer na televisão, e eu no exercício de satisfazer vontades.

Sou mulher realizada que pouco fala das próprias conquistas. Percebo que ele despreza, se incomoda. Será difícil, ainda hoje, a um homem conviver com uma mulher que ganhe mais? Que tenha mais sucesso profissional? Bobagem. Fosse ele um homem bom, desligaria as diferenças e prosseguiria amando. 

Rolo novamente a roleta dos dias e encontro brigas nascidas de alguma ferida narcísica. Era eu elogiada, era ele trancado em humor duro de conviver. E eu, então, inventava partida e tentava preenchê-lo de felicidade. Sorrisos nascidos de nervosismos os meus. Tinha medo de algum dito fora de lugar e íamos embora.

Fiz as vezes de mãe para as duas filhas dele. Fiz as vezes de filha para a mãe tão reclamosa do filho. Fiz as vezes de mulher, mesmo no cansaço, mesmo nos acúmulos de incompreensões que moravam em mim diante das suas atitudes.

E ele, novamente, diz que precisa de um tempo. E, então, eu saio do carro e olho para o sol que queima o dia e peço aquecimento. E me lembro de Clarice, a escritora que escreveu epifanias. E me lembro de que, na roleta dos dias que ainda virão, posso até encontrar dor, mas depois encontrarei a mim mesma, devolvida. Posso me desencontrar nas carências, que todo  mundo tem. Posso, sim! Poder não tenho para dizer ao sofrimento que parta. Estanco, entretanto, as gotas de dignidade que pingam de mim cada vez que ele me desmancha. E eu permito.

Tive mãe feliz no casamento. Tive independência cedo. Estudei o mundo para medicar as dores do corpo. Acordo cedo e preencho os dias atendendo doentes.

Doente está minha alma. Não por ele. Por mim. Por aceitar um amor sem amor. Por compreender o incompreensível desrespeito. Ou há amor ou não há nada. Migalhas alimentam pássaros que têm o céu inteiro para compensar. Preciso eu de plenitude. Perfeição, nunca exigi, nem dele, nem  de ninguém. Sou das que contemplam as rasuras que nos fazem encontrar outras palavras para seguir o texto da vida.

Rolo a roleta e limpo o passado, pelo menos na intenção do agora. Caminho firme pelas ruas de pedra que já serviram a outras dores. Passo por um ipê desabrochando amarelo, explicador de beleza, e paro agradecendo a sombra que me alivia a pressa. Pudera eu apressar o tempo e esquecer logo os sentimentos que não são bons. Não posso. O que posso é prosseguir vivendo. Curando os outros, enquanto me curo. Olhando paisagens em busca da vida que me escapa, quando outras vidas me atropelam. 

Estou inteira, eu sei. Mesmo em pedaços. É a epifania que me faz olhar um pé de goiaba, logo adiante, e que me adianta os dias futuros lembrando o passado, quando, descalça, subia na árvore e comia a alegria numa fruta qualquer. 

Por ora estou bem, cantarolando a liberdade que virá.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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