O poder do discurso que convoca à violência extrapola é um veneno que mata a sociedade aos poucos

As palavras, quando ditas por líderes sem responsabilidades com suas consequências, ganham repercussões imponderáveis. Nos últimos anos os brasileiros estão fartos de verborragia no seu sentido psicológico (Impulso compulsivo para falar; atitudes que geralmente, ocorre em certos casos de neurose e/ou psicose). Essa postura combinada com arrogância e autoritarismo projetam incertezas que afetam as expectativas futuras do Brasil e dos brasileiros.

Com o título – “A exclusão e o poder da palavra” Claudia Costin traz um bela reflexão sobre a importância da educação na inclusão social. Costin afirma: “ao conclamar hostes de seguidores a praticarem exclusão e violência, líderes se responsabilizam pelas tristes consequências de seus atos de fala. A palavra exclui, fere e mata.” Um bom texto!

A exclusão e o poder da palavra

Por Claudia Costin

Lendo declarações mais ou menos nos termos abaixo, chamou-me a atenção a linguagem utilizada e as inferências que dela podemos fazer: “Criança com deficiência atrapalha a aprendizagem das outras”; ou “Universidade não é para todos… sim, filhinhos de papai são os que mais estão na universidade, mas pagam impostos”; ou ainda “inclusionismo”, palavra usada para justificar nossa crescente exclusão, ou, melhor dizendo, para interromper um esforço insuficiente, mas importante, para enfrentar a falta de equidade em educação.

Quando se diz que escolas devem ser inclusivas, isso significa que devem estar abertas para todas as crianças, com deficiência, típicas, de diferentes etnias ou grupos de renda. Isso é não apenas mais justo como ajuda a construir as bases para uma sociedade mais coesa e próspera. Da mesma maneira, isso, longe de atrapalhar a aprendizagem, enriquece a formação das novas gerações, expondo-as a maior diversidade. Afinal, escola não é só um espaço onde recebemos informações a serem decoradas e repetidas em provas.

Para realizar o imperativo ético de uma escola mais inclusiva, há uma dura lição de casa a ser feita, na forma de investimentos em infraestrutura e em formação de professores e, em especial no ensino superior, no apoio aos estudantes para que enfrentem uma desafiadora adaptação a um ambiente que lhes é, em alguns aspectos, hostil. Mesmo assim, o esforço em implementar as políticas públicas necessárias para que isso ocorra foi realizado com sucesso pela maior parte das nações que contam com bons sistemas educacionais.

Aliás, é isso o que estabelece o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4, aprovado por 193 nações, inclusive o Brasil. O texto se refere ao compromisso de “assegurar uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade” para todos até 2030. Não se trata, como insinua uma das declarações, de uma “mania de inclusionismo” que estaria sendo adotada por parcelas da “academia”, e sim de um compromisso que assumimos.

Lembrei-me também da exclusão ao ler o noticiário sobre o Afeganistão. Excluir as meninas e as mulheres de acesso à educação ou a inúmeros outros direitos é algo inaceitável.

Em sua primeira entrevista, ao assumir o poder, o Talibã negou que isso vá ocorrer, mas, como bem mostra Levitsky em “Como Morrem as Democracias”, o poder do discurso que convoca à violência extrapola o que fazem diretamente os líderes, algo que vem ocorrendo inclusive no Brasil.

Ao conclamar hostes de seguidores a praticarem exclusão e violência, líderes se responsabilizam pelas tristes consequências de seus atos de fala. A palavra exclui, fere e mata.

Claudia CostinDiretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da FGV, e ex-diretora de educação do Banco Mundial.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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