Reestruturação capitalista como legado da pandemia

“Assim como na grande Depressão de 1929, quando o capitalismo caiu em desgraça, em meio ao avanço da União Soviética, assistiu-se nas recentes crises econômicas de 2008 e 2020 que abalaram o sistema mundial, o inegável fortalecimento chinês. Diferentemente do modelo soviético de construção de um mundo novo em paralelo ao capitalismo, modelo chinês persegue as próprias veias do sistema do capital, contaminando-o pelo próprio mérito de sua exitosa concorrência.”

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Créditos da foto: (Reprodução/Moneybar)

Por Marcio Pochmann


Ainda que o seu fim pareça improvável, o neoliberalismo sofre forte abalo desde o início da pandemia da Covid-19. A retomada do Estado com a imediata adoção das políticas anticíclicas para assistir tanto empresas como famílias evitou maior contração no nível de atividade econômica.

Embora protegida, a taxa média de lucro não refletiu homogeneamente a situação geral do sistema capitalista. Enquanto determinados setores foram penalizados fortemente, como os pequenos negócios, turismo, transporte, automobilístico e cultura, outros registraram desempenhos muito positivos, como bancos, fármacos, telecomunicações e comércio varejista.

A desigualdade de performance nos setores econômicos e de lucratividade maior nas grandes empresas e menor nas pequenas firmas gerou impulso adicional à monopolização capitalista. O reforço do poder de mercado das grandes corporações se expressou tanto por fusões que evitassem “a falência de empresas” como por “aquisições matadoras” das firmas inovadoras concorrentes[1].

Ao mesmo tempo, a constatação de que a mudança na intervenção estatal a partir da pandemia não tem se limitado ao mero socorro de empresas e famílias. Pelo menos para alguns países, o maciço gasto adicional público foi direcionado ao estímulo econômico travestido da retomada de investimentos estatais e das mudanças na regulação competitiva, ambas questionadoras do próprio neoliberalismo.

Como paradigma social e político dominante nos últimos quarenta anos, o receituário neoliberal se caracterizou por impor funções disciplinares e coercitivas ao Estado voltadas a transformar o público em privado. Na expectativa de elevar a taxa média de lucro do sistema capitalista em queda na década de 1970, devido ao esgotamento do modelo fordista, a inflexão na intervenção do Estado buscou abrir novos mercados lucrativos, ao passo que reduzia custos de uso e remuneração da força de trabalho.

Como legado da pandemia da Covid-19, emerge uma grande reestruturação capitalista em alguns países do Ocidente. Em função disso, outro tipo de consenso hegemônico pode estar sendo forjado através recuperação do Estado a reassumir o poder e o status perdidos.

Novas coalizões políticas nacionais almejam renovar a legitimidade necessária para enfrentar insatisfações e protestos reveladores do quadro geral de desespero que resulta da deterioração interna dos países. No cenário internacional, por exemplo, a tentativa de fazer valer as tradicionais fórmulas de natureza colonial e imperialista contemporâneas em países do Ocidente compreende o desespero frente ao deslocamento da centralidade econômica dinâmica para o Oriente.

Assim como na grande Depressão de 1929, quando o capitalismo caiu em desgraça, em meio ao avanço da União Soviética, assistiu-se nas recentes crises econômicas de 2008 e 2020 que abalaram o sistema mundial, o inegável fortalecimento chinês. Diferentemente do modelo soviético de construção de um mundo novo em paralelo ao capitalismo, modelo chinês persegue as próprias veias do sistema do capital, contaminando-o pelo próprio mérito de sua exitosa concorrência.

Plenamente perceptível na convergência das posturas dos Estados Unidos e da União Europeia em reação recentíssima, adotadas no primeiro semestre de 2021 para fazer frente ao domínio produtivo, tecnológico e comercial chinês. Tanto a atualização da Estratégia Industrial para as transições verdes e digitais da UE quanto o plano da Casa Branca de Biden para uma nova política industrial dos EUA apontam nesse sentido.

Em resposta, a China segue construindo acordos de cooperação com mais de 140 países, fortalecendo cada vez mais a iniciativa do cinturão e rota da seda, que permitem avançar suas empreiteiras e parcela crescente do seu setor produtivo. Da mesma forma, ergueu o plano econômico de montagem das dez bases emergentes e estratégicas com influência global em conexão com cem clusters de manufatura avançada de competitividade internacional e mil ecossistemas industriais com vantagens únicas, capazes de ofertar tecnologias de competitividade internacional, superiores às ocidentais.

Diante das hostilidades externas, como a lista de embargos tecnológicos realizada pelos EUA visando estrangular tecnologicamente a China, a reafirmação da conduta de um novo salto interno para a inovação doméstica. Desa forma, a planificação da inovação doméstica, ao se concentrar em tecnologias centrais, materiais essenciais, técnicas e algoritmos básicos, entre outros, busca substituir a manufatura tradicional com uso de mão de obra intensiva pela manufatura muito miais avançada.

Em síntese, a pandemia da Covid-19 estimulou novo movimento de reestruturação capitalista, especialmente nos EUA e UE que reagem ao sucesso chinês. Na mesma medida, a China responde com a aceleração da transformação de sua manufatura que impulsionada pela tecnologia, consolida sua posição de oficina do mundo moldada pela dominação da digitalização econômica.

Marcio Pochmann é professor e pesquisador do Cesit/Unicamp e da Ufabc

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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