Leiloar o Palácio Capanema – plano obscurantista de Guedes – é fazer do Brasil um país que não mais se reconheça

Paulo Guedes, na sua fúria privatista, quer leiloar o Palácio Capanema. Público abaixo o excelente texto da colunista da Folha de São Paulo Cristina Serra. Com uma lucidez aguçada, Cristina parte de um fato objetivo – transferência do histórico Palácio Capanema para a iniciativa privada – para defender preservação do patrimônio cultural brasileiro. Ela afirma: “Que o simples, belo e elegante Capanema seja o símbolo da nossa resistência e da nossa sobrevivência.” Um governo que não preserva os símbolos históricos da nação atenta contra a história do seu povo.

No site do Iphan, o Capanema é descrito como fruto do encontro de nomes como Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernany de Vasconcelos e Jorge Machado Moreira, sob a consultoria de Le Corbusier

O Palácio Capanema é dos brasileiros

Por Cristina Serra

O amigo Rubem Braga estava na Itália, como correspondente de guerra, e Vinicius de Moraes escreveu-lhe em carta: “… está no tempo de caju e abacaxi, e nas ruas já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que tem havido poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões à solta. Digam-lhe especialmente do azul da tarde carioca, recortado entre o Ministério da Educação e a ABI [Associação Brasileira de Imprensa]. Não creio que haja igual mesmo em Capri.”

O poeta falava da sede do Ministério da Educação, o Palácio Capanema, que foi —e ainda é— um manifesto de modernidade ética e estética num país arcaico. A construção é uma síntese do talento brasileiro e condensa um projeto de futuro, saído das mentes brilhantes dos arquitetos Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira e Ernâni Vasconcelos. Tem jardins de Burle Marx, painéis de azulejos e afrescos de Candido Portinari, esculturas de Bruno Giorgi e Celso Antônio de Menezes.

O pilotis do projeto de Le Corbusier, com o mural de azulejos pintados por Cândido Portinari (Foto: José Peres)

Carlos Drummond de Andrade, chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, que encomendara o prédio, registrou as qualidades da obra: “Dias de adaptação à luz intensa, natural, que substitui as lâmpadas acesas durante o dia; […] Das amplas vidraças do 10º andar descortina-se a baía vencendo a massa cinzenta dos edifícios. Lá embaixo, no jardim suspenso do Ministério, a estátua de mulher nua de Celso Antônio, reclinada, conserva entre o ventre e as coxas um pouco da água da última chuva, que os passarinhos vêm beber, e é uma graça a conversão do sexo de granito em fonte natural. Utilidade imprevista das obras de arte”.

Foto: Zonda Bez

Paulo Guedes pretende leiloar o Capanema que, aliás, é tombado desde 1948. Seu plano estúpido e obscurantista é fazer do Brasil um país que não mais se reconheça, banido do seu próprio rosto, sem memória nem medida da nossa singularidade criativa. Que o simples, belo e elegante Capanema seja o símbolo da nossa resistência e da nossa sobrevivência.

Cristina SerraCristina Serra é paraense, jornalista e escritora. É autora dos livros “Tragédia em Mariana – a história do maior desastre ambiental do Brasil” e “A Mata Atlântica e o Mico-Leão-Dourado – uma história de conservação”.

Publicado originalmente no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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