O trabalho liberta as mulheres do patriarcado?

“O movimento feminista deve buscar a libertação olhando para a pobreza, o racismo, a violência institucional e um sistema econômico que explora grupos minoritários.”

Manifestação do Bloco das Mulheres na Luta Contra a Violência do Estado no Dia Internacional da Mulher de 2013, Belo Horizonte.

Por Mayra Jardim Martins Cardozo

Em primeiro lugar, quando analisamos as mulheres no mercado de trabalho, é necessário estudar a origem do movimento feminista.

Mulheres de classe média e alta foram responsáveis ​​por moldar o pensamento feminista na origem do movimento; por isso, o plano majoritário da campanha era a ascensão das mulheres ao mercado de trabalho como forma de libertação.

No entanto, essas mulheres representavam apenas uma pequena parte das mulheres oprimidas. Além disso, estavam tão imersas em suas próprias experiências que ignoraram que a maioria das mulheres já ocupava o mercado de trabalho.

Essas mulheres que já ocupavam o mercado de trabalho não sentiam que o trabalho as libertava, mas colaboravam com mais opressão e exploração, pois viviam péssimas condições de trabalho e pouca remuneração.

No caso da mulher branca de classe média, prisioneira do espaço doméstico, a ideia era aceitar todas as condições de trabalho acomodadas a baixos salários para melhorar a renda familiar e romper com o isolamento pessoal.

Essa ideia perpetuada pelo movimento feminista branco de que o trabalho liberta as mulheres e que a libertação das mulheres vem de sua inserção no mercado de trabalho é uma premissa que alienou muitas mulheres negras, pobres e proletárias do próprio movimento feminista.

Mulheres e homens negros foram os primeiros a mostrar medo da inserção das mulheres brancas no mercado porque isso significava menos espaço geral para os negros em um mundo que valoriza a supremacia branca.

A grande questão que as feministas negras e feminista interseccional trazem à mesa é como a ascensão das mulheres do mercado veio a ser entendida – reduziu a agenda do movimento feminista aos interesses das mulheres brancas que limitam sua liberdade de entrar e ocupar espaços no mercado.

Mas esta não deve ser a única agenda do movimento feminista; o movimento feminista deve buscar a libertação olhando para a pobreza, o racismo, a violência institucional e um sistema econômico que explora grupos minoritários.

Mayra Jardim Martins Cardozo é advogada pós-graduanda em Direito Penal Econômico pela FGV-SP e em Direito Público, com ênfase em Gestão Pública, pela Faculdade Damásio, com especialização em Lei Anticorrupção pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Artigo publicado originalmente em O Estado de S. Paulo.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

Sobre joaoantonio60

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