País precisa de educação para aproveitar a Cannabis medicinal – a prioridade hoje é combater a ignorância em relação ao assunto no Brasil

“Os benefícios estão comprovados na assistência de casos que vão desde doenças neuropsiquiátricas e problemas crônicos de pele até transtornos gastrointestinais. Estudos ainda apontam bons resultados em diversas novas aplicações, inclusive como adjuvante anti-inflamatório em pacientes com Covid-19.”

Abrace, que fica em João Pessoa, é a única entidade autorizada a cultivar maconha com fins medicinais no Brasil — Foto: Divulgação

Por Patrícia Montagner

Cannabis medicinal tem um enorme potencial terapêutico, e a comunidade médica deve liderar a construção de um ambiente mais favorável para a utilização da planta no tratamento de várias doenças no Brasil.

Os benefícios estão comprovados na assistência de casos que vão desde doenças neuropsiquiátricas e problemas crônicos de pele até transtornos gastrointestinais. Estudos ainda apontam bons resultados em diversas novas aplicações, inclusive como adjuvante anti-inflamatório em pacientes com Covid-19.

Observamos recentemente um avanço importante com a aprovação do projeto de lei 399/15, por uma comissão especial da Câmara dos Deputados, para legalização do cultivo e produção da Cannabis para fins medicinais no país. A venda de medicamentos à base da planta já estava autorizada desde 2017, quando a Anvisa registrou o Mevatyl, remédio composto de canabidiol e tetrahidrocanabinol (os dois principais elementos químicos da planta) para tratamento de espasmos associados à esclerose múltipla.

A USP tem mais que o dobro de publicações sobre o canabidiol (CBD) do que a segunda instituição, o King’s College London, do Reino Unido. Em terceiro está a Universidade de Jerusalém, em Israel, e, em quarto, o Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos – Foto: 123RF

São passos promissores, que demonstram que o Brasil segue na direção correta, mas ainda é necessário caminhar bastante para tornar os tratamentos à base de Cannabis acessíveis, seguros e eficazes.

A prioridade do momento deve ser a educação. A falta de informação e um persistente estigma em relação à Cannabis, com muita confusão entre uso medicinal e o uso recreativo, são hoje o principal empecilho para a popularização dos benefícios da medicina endocanabinoide no Brasil. Nossa prioridade, hoje, é combater a ignorância em relação ao assunto.

Nesse sentido, a comunidade médica é liderança natural, e correta, no esforço de esclarecimento da sociedade. Mas, para tomar à frente, precisa se preparar melhor para isso. Por enquanto, poucos profissionais dominam o tema no país, e o desconhecimento ainda é regra entre a classe.

A maioria das instituições de ensino, por exemplo, ignora a existência do sistema endocanabinoide e a utilização da Cannabismedicinal como ferramenta de modulação desse sistema, apesar de resultados científicos contundentes publicados há décadas. Uma omissão espantosa, mas o problema é ainda maior.

Imagem: Tinnakorn Jorruang/iStock

À falta de interesse, juntam-se abordagens equivocadas. Pontos de vista passionais e extremistas —que consideram a Cannabis ou um remédio milagroso ou um veneno perigoso— muitas vezes dominam e contaminam o ambiente. Tão importante quanto estimular o debate é garantir o nível técnico e imparcial da discussão.

Além disso, chegamos ao estágio em que será criado um mercado de proporções bilionárias, e a relevância econômica da área é cada dia maior. Mais um motivo, portanto, para a urgência em garantir um processo guiado pelo conhecimento científico e pela ética, que cumpra a finalidade maior de proteger e proporcionar o bem-estar dos pacientes.

É hora de estimular médicos e outros profissionais de saúde a estudar e se preparar. Temos que formar gente com capacidade técnica para consolidar a terapia endocanabinoide no Brasil. Pessoas que vão desenvolver esse ecossistema, criar padrões, fomentar práticas e inserir produtos qualificados nas redes pública e privada de saúde, impedir retrocessos, esclarecer e beneficiar a sociedade. E, principalmente, profissionais que vão diagnosticar, prescrever e realizar tratamentos de potencial transformador na qualidade de vida de milhares de pacientes portadores de doenças graves, refratárias e incapacitantes.

Nós, médicos, temos sempre a obrigação de garantir aos nossos pacientes a melhor assistência disponível e incorporar à nossa prática médica ferramentas terapêuticas comprovadamente seguras e eficazes. E hoje, diante da enxurrada de artigos científicos publicados na área e da robustez de resultados observados diariamente na vida de centenas de milhares de pacientes, está claro que a terapia endocanabinoide e a Cannabis medicinal demonstram ser uma excelente alternativa.

Patrícia Montagner é especialista em neurocirurgia e fundadora da WeCann Academy, comunidade global e centro de estudos em medicina endocanabinoide

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União

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