Para se ter uma uma sociedade mais justa é preciso discutir a questão racial em sala de aula

“Um professor antirracista é aquele que percebe que, independentemente das prescrições curriculares do que e como ensinar, percebe as demandas atuais de sua sociedade e compreende ser capaz de definir e produzir saberes que inspiram mudanças para uma sociedade mais justa e humana —porque entende que descolonizar mentes é mais do que um dever profissional, é um direito educacional.”

EDUCAÇÃO PARA UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA

Por Lavini Castro

Pensar na educação é pensar propostas de projetos políticos mais amplos de sociedade. Nesse sentido, é importante que o conhecimento acadêmico, transmitido pelos professores em sala de aula, reflita o contexto político, econômico, social e cultural que ocorre em sociedade.

O profissional da educação precisa se perceber um intelectual mediador do conhecimento para que, de fato, a educação adquira seu conteúdo político e não venha a se configurar como mera base informativa.

Fazemos escolhas e nos posicionamos o tempo todo. Em grande parte, nosso posicionamento, ao nos formarmos na área de pedagogia e licenciaturas e adentrarmos a máquina institucional da educação, acaba sendo seguir prescrições estatais de como e o que ensinar.

Ocorre que tais prescrições são reveladoras do quanto a educação tem negligenciado histórias e culturas de determinados grupos sociais. Não é à toa que precisamos ter uma lei, a —10.639/2003, hoje alterada para 11.645/2008—, para evidenciar os silêncios e marginalizações que grupos indígenas e afro-brasileiros têm sofrido historicamente em nossa sociedade.

Nesse sentido, pensar a educação das relações étnico-raciais é pensar uma educação que se baseie num comportamento antirracista, que promova espaço de conscientização a respeito da realidade de nossa sociedade, que estimule questionamentos e reflexões a respeito da versão etnocêntrica de nossa história —que negou passados de de luta e resistência e quase apagou outras visões de mundo, impedindo o reconhecimento da diversidade histórica e cultural de nosso país.

O professor que se identifique com uma identidade antirracista precisa compreender a importância de seu posicionamento diante a educação que quer realizar. Numa sociedade fruto de uma histórica relação de discriminação racial a indígenas e negros, torna-se urgente trazer tais discussões para dentro da sala de aula.

Por isso, não adianta fazer um belíssimo trabalho pedagógico para pensar a questão do racismo apenas em novembro, mês em que se homenageiam e se resgatam as raízes do povo afro-brasileiro. Devemos trabalhar a questão racial ao longo do ano letivo, porque o problema do racismo é cotidiano.

Ou seja, é preciso discutir a questão racial no Brasil sempre que possível. Podemos inclusive reforçar a pauta de luta afro-brasileira no mês de julho, quando se evidenciam ações coletivas de mulheres negras sobre suas pautas específicas —o que se convencionou chamar de “julho das pretas”, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher Negra Afro Latino-americana e Caribenha, celebrado hoje. No Brasil, a data é o dia em que se comemora Tereza de Benguela, líder quilombola que viveu no atual estado de Mato Grosso durante o século 18.

Um professor antirracista é aquele que percebe que, independentemente das prescrições curriculares do que e como ensinar, percebe as demandas atuais de sua sociedade e compreende ser capaz de definir e produzir saberes que inspiram mudanças para uma sociedade mais justa e humana —porque entende que descolonizar mentes é mais do que um dever profissional, é um direito educacional.

Lavini Castro é historiadora pela UFRJ, mestre em relações étnico raciais, educadora e criadora da Rede de Professores Antirracistas

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União

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