Deitei no mar – crônica de Gabriel Chalita

“Fui em direção ao mar. E deitei o meu cansaço na areia. E deitei o mar de barulhos que atormentavam aquele dia. Com a roupa do trabalho. Com o trabalho de acordar o mundo adormecido dentro de mim.”

DEITEI NO MAR

Por Gabriel Chalita

Estava exaurido,quando cheguei em mim, e perscrutei o que havia me tornado. Um ser de infelicidades.

No trabalho, as asperezas do Dr. Walter. Os gritos parecem alimentar a sua ânsia de poder. Sou motorista, apenas. E ele a mim se dirige variando brincadeiras vulgares com xingamentos. E eu digo nada. Mente o Dr. Walter com a mesma regularidade com que respira. Finjo distância, mas o gordo da sua voz não deixa espaço nenhum para o silêncio. 

Preciso do trabalho. E trabalho sofrendo pela ausência de coragem de dizer ‘sim’ à liberdade de tentar outros caminhos. Dirijo carros, mas estaciono a minha vida.

No amor, a vergonha de ser trocado. Sei que acontece. Mas não sabia que doía tanto. Foram palavras poucas em um disfarce facilmente percebível. Acusações encomendadas para culpar quem fica. Fiquei eu chorando a cama vazia e a pouca vontade para um recomeçar.

Resolvi estudar. Como? Se horários não me pertencem? Como doeu, certa vez, em que o deixei em casa depois do desligar do dia. Eram 2 da manhã. Ele, vociferando brincadeiras tolas, contando vantagens da vida sexual, marcou comigo às 7 do dia seguinte. Contando o tempo da distância entre as nossas casas, o que sobrou foi para um banho e um café sem açúcar.

Cheguei, pontualmente, e ele saiu às 10. Sem uma palavra de desculpa por me deixar sem dormir. É esse o meu patrão. Gosto nada de suas piadas. Mas exerço o sacrifício do riso. Forçado. 

Pedi a um professor paciência no atraso de um trabalho. A um outro, desmarquei a prova. E, assim, vou de súplica em súplica. Alguns compreendem, outros desatendem. É assim mesmo. Sou apenas um. Sou ninguém. 

E foi assim que saí de sua casa e fui em direção ao mar. Estava contando os dias para um dia de repouso. Estava contando os dias para um dia de paz, sem que eu pensasse na dor da traição. Estava contando os dias para terminar a faculdade e dirigir minha vida sem precisar digerir indelicadezas. 

Fui em direção ao mar. E deitei o meu cansaço na areia. E deitei o mar de barulhos que atormentavam aquele dia. Com a roupa do trabalho. Com o trabalho de acordar o mundo adormecido dentro de mim.

Adormeci e sonhei a infância. Meu pai faleceu no meu primeiro engatinhar. Minha mãe teve que cuidar de tantos. O mar. Eu pequeno, brincava com uma bola pequena, quando as ondas desavisadas do meu pouco ter engoliram. Eu tentei ter a bola de volta. Eu chorei na beira e nada pude contra o vaivém ininterrupto daquele dia, de tantos outros dias.

Perdi meu pai, quando nem sabia. Perdi uma bola imaginando ter perdido o mundo. Perdi tanto. Foi o que o meu alternar de realidade e sonho diziam no cansaço da areia.

Era um entardecer e poucas pessoas estavam na praia. Fazia frio no dia e em mim. E, mesmo no cansaço, havia um vento bom que me lembrava a graça de estar vivo.
Pensei pensamentos estranhos. Quem fez o mar? Por que o mar foi feito? E o resto, quem fez? E a injustiça não pode ter sido feita pelo mesmo Artista que fez o mar. Nem a traição. Nem os dizeres arrogantes. Quem fez? Quem foi que me fez? 

Não sei se, no sonho ou no pensamento, o menino, que um dia eu fui e que chorou apenas uma bola, conversava comigo. E me recobrava o que ele sonhava naquele dia. Um dia, ele não seria mais menino e enfrentaria as ondas descuidadas e tomaria de volta o que era seu.

Como faço para tomar de volta o que é meu? Como faço para desviver a submissão, o comodismo e reencontrar as forças do menino valente?

O sol já estava indo, quando acordei em definitivo. Decidi limpar os pesos que me prendiam ao chão que não me pertencia. 
Há beleza demais no universo para me empoeirar de vidas sem vida. Amanhã, Dr. Walter será apenas uma lembrança do que não quero jamais ser. Amanhã, a dor de amor que passou será passado. Amanhã, me formarei na escola de comunicar felicidades. É isso o que importa. 

Limpei a pouca areia teimosa e ri como riem os loucos ou os apaixonados. Falei sozinho comigo e me vesti de vontade para beijar minha mãe. Dona Elvira anda reclamando das minhas ausências. Ela vai se surpreender.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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