Muito mais que o impeachment, é preciso preservar a fauna, a flora e vidas humanas

Bolsonaro tem o mérito involuntário de, por meio de sua atitude criminosa, colocar o meio ambiente no centro das relações internacionais brasileiras. Em plena revolução climática, talvez tenha chegado a hora de apostar ainda mais na internacionalização da luta contra o seu governo”.

Muito mais que o impeachment

Por Mathias Alencastro

Apoiar a destituição de um presidente diretamente responsável por milhares de mortesdurante uma pandemia é um imperativo moral que supera as considerações institucionais, partidárias e eleitorais. No entanto, esse instrumento pode ser insuficiente para a disputa política contra um presidente com as características de Bolsonaro, cujas ações reverberam em toda a comunidade internacional.

impeachment é por natureza um processo endógeno, dificilmente legível para observadores estrangeiros, que precisam mergulhar nos meandros da lei brasileira e decifrar as ironias dos membros da CPI para entender os seus desdobramentos. O regresso da campanha pelo impeachment depois da polêmica, e até hoje mal compreendida, destituição de Dilma Roussefftambém reforça a impressão de que a crise política nacional se resume a uma repetição de fracassos presidenciais.

Mas a dinâmica da campanha contra Bolsonaro é única por causa da questão climática. Só na semana passada, o Financial Times exigiu no seu editorial uma punição aos crimes ambientais perpetuados pelo seu governo, e o Guardian alertou para uma mudança de paradigma na dinâmica das emissões de carbono da floresta amazônica. Estimulada pelo trauma das enchentes na Bélgica e na Alemanha, a União Europeia vai acentuar a pressão contra o governo brasileiro, e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil está formalizando uma nova denúncia contra Bolsonaro em Haia. O debate sobre o impeachment provincianiza a política brasileira, quando ela nunca foi tão globalizada.

Enquanto a campanha pelo impeachment deve perder fôlego com o aproximar das eleições, a campanha internacional pela proteção da Amazônia deve ganhar uma dimensão inédita nos próximos meses, alimentada pela insistência do governo Bolsonaro em avançar com o desmonte da política ambiental, por fenômenos como as queimadas, e a eventos diplomáticos como a COP26.

Nesse contexto, dedicar muito tempo a especulações sobre o impacto dos sentimentos da classe política de Alagoas nas decisões de Artur Lira, ou à análise das manobras obscuras da Procuradoria-Geral da República, é a melhor forma de subaproveitar o potencial da sociedade civil brasileira. Insistir nessa estratégia significa perder a oportunidade de mostrar ao mundo que o Brasil dispõe das lideranças, dos instrumentos e das tecnologias necessárias para reverter a situação da Amazônia. Também significa perder a última chance antes das presidenciais de vincular a morte em massa de brasileiros à devastação da floresta, e a luta pela democracia à emergência climática.

Bolsonaro tem o mérito involuntário de, por meio de sua atitude criminosa, colocar o meio ambiente no centro das relações internacionais brasileiras. Em plena revolução climática, talvez tenha chegado a hora de apostar ainda mais na internacionalização da luta contra o seu governo. A sua destituição deve ser sempre exigida. Mas não podemos esquecer que, lá fora, o mundo não gira em torno do impeachment.

Mathias Alencastro

Mathias AlencastroPesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e doutor em ciência política pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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