Um povo que conhece sua história e com sentimento de pertencimento dificilmente será dominado

“Um povo que conhece sua história e com sentimento de pertencimento dificilmente se deixará dominar por outro povo ou grupo. Imperialistas com suas armas dominam vilas, países, separam pessoas, prendem, matam e escravizam. Proíbem a cultura, a língua, a religião, mas enquanto o último humano pertencente àquele povo conhecer suas raízes, sua história e for capaz de transmiti-la, o sonho de liberdade reinará.

A Grande queima de livros no Brasil de Bolsonaro

Por Gislene Alexandre

Não basta exonerar cargos, calar pessoas, impedir reuniões… não basta prender os corpos. É preciso impedir que o pensamento ecoe, pois o que os tiranos odeiam mais que a liberdade de um povo é um povo consciente e pensante.

Um povo que conhece sua história e com sentimento de pertencimento dificilmente se deixará dominar por outro povo ou grupo. Imperialistas com suas armas dominam vilas, países, separam pessoas, prendem, matam e escravizam. Proíbem a cultura, a língua, a religião, mas enquanto o último humano pertencente àquele povo conhecer suas raízes, sua história e for capaz de transmiti-la, o sonho de liberdade reinará.

Os tiranos sabem disso, por isso ao longo da história da humanidade, de tempos em tempos livros são proibidos ou queimados. A primeira queima de livros em Roma foi ordenada por Augusto no século XII a.C. As obras queimadas continham profecias e oráculos antigos. Ele considerava os livros como uma afronta à suas ideias políticas. A biblioteca de Alexandria, fundada no início do século III a.C., acabou após diversos ataques, inclusive diversos incêndios antes de sua destruição total. Há relatos até de que Júlio César tenha comandado um dos incêndios.

Durante a Inquisição Católica inúmeras obras foram queimadas pois era preciso manter as pessoas sob as ordens da Igreja e de suas respectivas monarquias e livros podem ser perigosos.

O ano de 1933 marca a chamada Grande Queima de Livros onde milhares de publicações foram destruídos pela tragédia nazista que dominou a Alemanha.

Durante a ditadura militar diversas obras dentre livros, letras e peças eram submetidos à censura e proibidos. A redemocratização do Brasil em 1985 e a Constituição Federal de 1988 deveriam colocar fim de uma vez por todas a esse período tenebroso. Entretanto, o cheiro das cinzas, oriundo das grandes fogueiras ditatoriais contra a cultura e pensamento crítico ressurgem nos anos 2020 quando a democracia deveria já ser consolidada e defendida.

Em 2020 o governador de Rondônia Marcos Rocha proibiu nas escolas públicas do Estado cerca de 43 livros tradicionalmente usados em sala de aula e muitos dos quais cobrados em vestibulares das faculdades mais disputadas no país, dentre estes ‘Macunaíma’, de Mário de Andrade, ‘Os Sertões’ , de Euclides da Cunha e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. A secretaria de Educação justificou dizendo que as publicações continham conteúdos inadequados às crianças e adolescentes. Todavia é preciso dizer que esta que vos escreve considera o governador inadequado para o estado.

E como o governo Bolsonaro não conseguiu ainda declarar abertamente a proibição do pensamento e da propagação de conhecimento, utiliza seus capatazes para realizarem “a grande queima dos livros” em locais pontuais e estratégicos. 

A Fundação Palmares há mais de 30 anos trabalha para preservar a história, fomentar a cultura, incentivar trabalhos artísticos e lutar pela erradicação do racismo. No entanto, desde que Bolsonaro assumiu a presidência a Fundação tem sido um de seus alvos. Para legitimar seus atos contra o povo negro e a história nomeou Sérgio Camargo como presidente da Fundação, e este por sua vez não mede esforços para minimizar a gravidade dos efeitos catastróficos da escravidão e agora decide retirar do acervo mais de 5.100 obras, que segundo ele se tratam de apologia ao banditismo e de conotação sexual, além de marxistas que nada têm a ver com a temática do povo negro.

Livros cujas temáticas perpassam pela evolução humana, construção da sociedade e lutas de classe estão muito mais ligadas ao povo negro que se possa imaginar. O povo negro, trazido ao continente americano participa da construção dessa sociedade de classes onde tentaram cortar seus vínculos, sua cultura, sua fé e depois fingiram uma libertação que condenaria o povo negro a morrer de fome e de desespero vagando sem um lugar e sem meios para recomeçar.

Esse povo, os pretos da diáspora ainda tem que que conviver com a segregação espacial, falta de estudo, direitos negados e mais de 100 anos depois ainda permanecer sem nenhuma reparação, sem reforma agrária, sem política de habitação decente, em sua grande maioria nos piores trabalhos e com a menor remuneração. Aí vem alguém e quer nos fazer acreditar que a luta do preto não é uma luta de classes. Seria cômico se não fosse uma tragédia tão grande pensar que Zumbi dos Palmares praticou o que eles chamam de banditismo. Colocavam fogo nas fazendas, roubavam negros que estavam escravizados com permissão da lei. Nenhum quilombola batia na porta da frente para pedir gentilmente que a senzala fosse aberta. Homens e mulheres guerrearam, mataram, saquearam sim.

Por fim reitero que a história dos negros no Brasil é, portanto uma história de luta, de resistência, de feminismo, de política, de banditismo, de revolução, de evolução e sem sombra de dúvidas uma história de luta de classes e ao analisar a história das queimas de livros é compreensível que o atual governo queira fazer o mesmo e começar apagando a história do povo negro, pois este povo se, unido e consciente é capaz de derrubar sua tirania.

Gislene Alexandre é escritora em defesa da mulher negra rural e erradicação do trabalho infantil

Publicado originalmente no portal Brasil247. Acesse: https://www.brasil247.com/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

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